10/12/2010

Lua cheia de bebês

Carlos Moura

A professora Alessandra Lucena deu à luz Isis na mudança da lua nova para a crescente: ''Achava que isso era uma superstição''

Os apaixonados vêem na luz da lua um estímulo a mais para a paixão, para o namoro, para o sexo. E nem imaginam que, nove meses depois, esse mesmo luar poderá apresentar mais uma de
suas influências: a determinação para o nascimento do bebê. Mesmo sem haver comprovação científica que afirme a influência das fases lunares com partos, alguns médicos chegam a arriscar um palpite para o nascimento nos dias de mudança de fase e, principalmente, durante a passagem da lua cheia.

Durante os 11 anos em que morou no interior do Amazonas, a professora brasiliense Alessandra Lucena, 32 anos, ouviu das parteiras da região que a lua influenciava na hora do parto. ''Cansei de ouvir histórias de mulheres que entraram em trabalho de parto nas mudanças de lua. Muitas chegavam até a programar o nascimento dos filhos com sucesso'', lembra.

O que Alessandra não podia imaginar era que o nascimento de sua primeira filha, Isis, no dia 13 de setembro, coincidiria com a mudança de lua nova para crescente. Ficou ainda mais surpresa quando o médico que acompanhou sua gestação lhe avisou que o parto deveria acontecer numa mudança de lua. ''Achava que isso era apenas uma superstição do Norte, e não também algo que é analisado pelos médicos'', confessa.

Quando Alessandra completou 38 semanas de gestação, o obstetra lhe avisou que o nascimento poderia acontecer a qualquer momento. Mas que, dentro da sua experiência, o mais provável era que ocorresse em dias de mudança de lua. Seja pela questão psicológica, seja pela influência lunar, a professora teve sinais de início de trabalho de parto no primeiro dia da lua minguante, em 30 de agosto, e da lua nova, em 7 de setembro. Isis nasceu na virada seguinte, de parto normal, no primeiro dia da lua crescente.

De acordo com a presidente da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de Brasília, Lucila Nagata, não há uma publicação científica na área da Medicina que comprove a influência da lua nos partos. Entretanto, muitos médicos admitem que há um número maior de nascimentos nos dias de virada ou durante a fase da lua cheia. ''Comentamos isso em tom de brincadeira. Mesmo com uma grande incidência, não há como tratar o assunto com rigor por falta de comprovação'', justifica Lucila.

A ginecologista obstetra Vera Lúcia Favilla Coimbra, com 26 anos de formação e mais de 20 mil partos realizados, diz que não chega a usar as mudanças da lua para programar o parto das pacientes. Mas que, conforme disse, ''a coincidência fala mais alto''. Segundo ela, o seu recorde de partos foi num dia de transição de lua crescente para cheia, em 1981. Naquele plantão noturno de um hospital público, Vera fez, sozinha, 28 partos. Nos outros dias de transição, era normal fazer entre 20 e 25 partos.

''As enfermeiras chegavam até a querer trocar o plantão, porque sabiam que teriam muito trabalho'', lembra. Os partos nos dias fortes da lua, segundo ela, seriam mais rápidos e teriam menos necessidade de intervenção médica.

Na tentativa de uma explicação para o fenômeno, a médica diz que, por tradição, os ciclos menstruais da mulher são contados pelo sistema do mês lunar, com apenas 28 dias. A gestação também obedece o mesmo ciclo. Em média, são contados nove ciclos da lua - e não nove meses completos -, desde a fecundação até o momento previsto do parto.

A funcionária pública Kátia Neves, 43 anos, se recorda que o parto da filha Alexandra, 15, coincidiu com uma virada da lua minguante para a nova. Dias antes do nascimento, Katia sentiu dores e foi tranqüilizada por uma tia. ''Ela disse que meu bebê só nasceria na transição da lua e que seria uma menina, por se tratar de lua nova.'' Alexandra nasceu em 28 de março de 1987, sábado, no primeiro dia da lua nova.

DOMÍNIO DAS ÁGUAS

Mesmo ainda sem comprovações sobre a influência da lua sobre o nascimento de bebês, é certo que o satélite é capaz de proporcionar mudanças em elementos da Terra. Os mais visíveis dizem respeito aos elementos fluidos, como a água das marés e os ventos atmosféricos. Para esses casos, a ciência explica.

De acordo com o astrogeofísico Leonardo Ferreira, professor do curso de Física da Universidade de Brasília, a pressão gravitacional aumenta quando o satélite está mais próximo da terra. Os efeitos, segundo ele, também são comuns nas datas de transição entre fases. ''Tudo que é fluido, como os ventos e as águas, sofre alterações nessas datas. É uma força capaz de deslocar grandes quantidades de matéria, dependendo da intensidade que vier'', explicou.

Essa influência sobre as águas é interpretada pelos esotéricos como um domínio exercido também sobre as emoções humanas. A lua sempre foi vista como um elemento fascinante. Ela representa os movimentos cíclicos, o mistério, o inconsciente. Para o astrólogo Carlos Maltz, a energia lunar regula a vida emocional dos seres humanos. ''Por isso, há associações como a do lobisomem. O mito nada mais é que a manifestação de toda uma carga emocional instintiva, liberta durante a lua cheia'', exemplifica.

Na astrologia, a lua rege o signo de câncer, ligado às relações familiares e à figura da mãe. Suas influências, segundo Maltz, podem ser percebidas tanto na vida dos homens como na das mulheres. Para o astrólogo, o segredo da relação entre o satélite e a hora do parto pode estar no líquido amniótico. ''O ventre materno torna-se uma bolsa de água, como o nosso planeta. É natural que a lua controle esse fluxo também'', teoriza.

http://www2.correioweb.com.br/cw/EDICAO_20021004/vid_mat_041002_126.htm

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