19 de jul de 2015

PERMITIR-SE SER MÃE


Acredito que uns dos maiores choques na vida de uma mulher no pós-parto seja a percepção de que "aquilo tudo" é maior do que ela pensava. O que está em jogo, porém, não é somente a questão prática e material, ou seja o trabalho braçal que um recém-nascido dá. Estar 24 horas por dia disponível para outra criatura que precisamos aprender a decifrar é um desafio grande, mas a raíz da dificuldade está em algo mais profundo que nem sempre vem à tona: a autorização a ser mãe.


Não vou dizer o que é ser mãe. O que quer que isso seja, certamente é algo grande, intenso e profundo. A questão está em permitir que essa "coisa" que se chama "maternidade" penetre e remodele nossa vida. Se trata de aceitar o que der e vier, dizer sim à uma nova vida, completamente desconhecida. Até em função de descobrir o que é a maternidade para ela, toda mulher precisa fazer isso: deixar-se levar, entregar-se, consentir a ter sua vida transfigurada.

A autorização consiste em duas etapas:

1) Autorizar-se a mergulhar na experiência, porque somente assim poderá ser vivida inteiro, realizá-la com sucesso e ser uma mãe responsável e feliz.

2) Autorizar-se a pedir (e até mesmo a exigir) ajuda. Uma mulher com um recém-nascido necessita de ajuda, e ela precisa saber que tem o direito de pedi-la.

Tornar-se mãe é mudar o foco e as prioridades. Há mulheres que não se acham no direito de dedicar o tempo e as energias necessárias a viver em plenitude a experiência da maternidade. Há outras que se sentem eternamente em culpa por "incomodar" os outros e não conseguem pedir ajuda. Há enfim aquelas que se sentem cobradas pela sociedade e pela sua própria mentalidade antiga (pré-gestação) a manter atividades profissionais e sociais. Enfim, há aquelas mulheres que não se sentem à altura de serem responsáveis pelo filho e acham que não vão dar conta.

Para todas elas a resposta é a uma só e a mesma: sem ser atingida em cheio pela maternidade você não vai dar certo de verdade. Não tem como aprender a nadar quando permanecemos agarradas à primeira rocha ou tronco do rio. Vale a pena se jogar no rio e descobrir como é o mar.


Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

13 de jul de 2015

AUTO-ESTIMA FEMININA E AMAMENTAÇÃO


O leite materno não desce somente porque existe uma fisiologia que o produz, mas é liberado ou bloqueado pela psique da mãe que tem um papel tão importante quando o físico. O caso abaixo é um exemplo de como a auto-estima da mulher influencia a amamentação.

E.A.S. tem 27 anos, é casada, trabalha como balconista. Engravidou após alguns meses de tentativas. Ao receber a notícia do exame positivo, mãe e pai ficaram muito felizes. O casal realizou curso de gestantes fornecido pela Cooperativa Médica da cidade. Nota-se que a participação do pai foi integral no curso. Ele fazia questão de estar presente com sua esposa.

Davi nasceu de parto normal. A mãe não acredita como isso aconteceu... Cita que nunca quis ter um parto desse tipo, mas aconteceu... Sentiu dores a noite toda, entretanto, achou que fossem  "gases". Ligou para o obstétra pela manhã... foi avaliada e rapidamente encaminhada à sala de partos, com 9 cm de dilatação.

E.A.S. conta que foi muito dolorosa a expulsão de Davi, mas se sente muito orgulhosa por ter conseguido.

Ainda no hospital, logo após o parto, Davi mamou ao seio.  A mãe sentiu medo e insegurança. Na madrugada, teve dificuldade para amamentar, mesmo sendo auxiliada pela enfermagem. Foi oferecido ao recém-nascido leite artificial.

No dia seguinte, o pediatra avaliou o bebê e lhe deu alta hospitalar. Orientou  a mãe sobre vacinas, teste do pezinho, retorno ao consultório, forneceu-lhe uma receita de desobstruidor nasal e... leite NAN.

E.A.S. conta que gosta muito do pediatra que escolheu para seu filho, e que ele havia sido o seu pediatra! Foi observada a estreita relação de confiança.

Recebi um telefonema na quinta-feira a noite (era um pouco tarde, eu já estava deitada). Era a avó de Davi, mãe da puérpera. Muito preocupada pediu para que eu ligasse para sua filha, pois ela estava com muitas duvidas. No dia seguinte fui visitá-la em sua residência.

Casa muito pobre, em uma vila distante. Estavam lá a avó que fez o contato, o pai do bebê, a mãe e dois cachorros. Davi estava dormindo com o pai, na cama do casal. Conversei bastante com E.A.S. e senti que ela estava amedrontada... tinha duvidas sobre cuidados básicos e estava oferecendo ao seu pequeno filho leite "Nestogeno" por ser mais barato do que o prescrito pelo médico.

Suas mamas estavam gigantescas... e com muito leite!!! Entretanto, ela não o tinha fornecido para Davi, alegando que o mesmo não consegue pegar.
Demos banho no pequeno, e começamos a empreitada para dar-lhe de mamar. A mãe demonstrava pouca paciência... e a avó ficava, atrás de uma porta, fazendo sinal para que eu não deixasse ela desisitir. Davi pegou o seio. Mostrei à mãe que ele estava sugando. Reforcei a importância do leite materno e da sucção para continuar produzindo leite. O pai em todo o tempo da visita continuou no quarto, dormindo! Retornei ao meu trabalho. Mais tarde, entrei em contato por telefone, tudo estava bem.[1]

Há aqui relação entre o parto e a amamentação, não no sentido material mas símbolico. A mãe não se sentia preparada para o parto normal, apesar do curso para gestantes na Cooperativa Médica da cidade. Nesses cursos são passadas informações genéricas sobre alguns aspectos do parto e da maternidade focando nos cuidados materiais e nas técnicas, conforme a cultura materialista e superficial na qual vivemos. Pouca ou nenhuma atenção é dada à capacitação da mulher, ou melhor, ao despertar de sua capacidade.

A insegurança que E.A.S. tinha com relação parto se transferiu para a amamentação. O parto ocorreu “sem querer”. O fato dela ter tido um parto normal e de sentir-se orgulhosa por ter conseguido não significa que ela o tenha absorvido em sua personalidade. Ela continua se sentindo insegura e fraca. Faltou, após o parto, a elaboração da experiência. Não basta o corpo fazer, realizar o parto. A consciência deve, sem seguida, apropriar-se da experiência, fazê-la própria, assumindo-a conscientemente e com ela as capacidades envolvidas.

A essa falta de consciência se soma o estranhamento do fenômeno da amamentação, o qual está ligado a dois fatores. Em primeiro lugar, existe uma natural falta de familiaridade com um ser tão pequeno e de aparência frágil que não conhecemos, que depende inteiramente de nós e que “não fala a nossa língua”. É aquela sensação de insegurança no manipular um serzinho desses e de certa forma “não saber o que fazer com ele”. Isso é basicamente devido à falta de hábito. Qualquer mulher após ter passado por um bebê (próprio ou alheio) desenvolve reações apropriadas.

Em segundo lugar, está espreitando aqui o sentimento de responsabilidade da mãe para com a vida do bebê, que pode facilmente se refletir no ato de amamentar. Trocar fraldas, lavar, vestir são gestos materiais; se aprendem. Amamentar é uma dimensão física-e-psíquica. Ser nutriz é muito mais do que ser a babá do próprio filho. Ser nutriz pressupõe que é “nosso conteúdo” que nutre e mantém em vida o bebê. E por conteúdo entendo: o alimento material (leite) e aquele simbólico (amor, valores, estilo de vida, educação, sentido da vida).

No aspecto simbólico encapsulado no gesto físico de amamentar pulsa, como um coração, a seguinte questão: serei uma boa mãe? Sou capaz de ser mãe? O que tenho a oferecer para um filho? Aquilo que sou é suficiente para dar-lhe o que ele precisa para seu desenvolvimento?

Se essas perguntas parecerem profundas demais, quero lembrar que não é absolutamente necessário que tenhamos consciência delas para que existam. É justamente por isso que há mais de cem anos surgiu o conceito de inconsciente: há coisas que a consciência desconhece e que entretanto existem e influenciam nossas vidas.

É interessante, nesse relato, que o pai permanece o tempo todo dormindo. Podemos nos perguntar por quê, já que ele participou da gestação e estava muito feliz com a vinda do filho. De fato, ele e o filho dormem juntos...

Ser pais participantes da gestação e do parto é estar envolvidos na paternidade, o que é coisa diferente do estar envolvido na relação com a mãe do próprio filho. Uma coisa é apoiar a gestação, outra é apoiar a mulher que a carrega! Esse homem, como muitos, está voltado para o filho. Ele vai ter seu filho, sua progênie. As mulheres continuam, com frequência, sem poder contar com a parceria masculina. Cada um tem um filho, separadamente, mesmo sendo o mesmo bebê.

Ao vazio do apoio moral do marido, se soma, à sabotagem do pediatra que, ao receitar o leite artificial, está diretamente desqualificando o leite da mulher. Sobra somente a mãe da puérpera, a qual busca ajuda...
Concluímos que só nos resta a solidariedade feminina, que é a chave que precisamos para empoderar as mulheres, de modo que elas possam ser mães ativas e conscientes de uma nova geração humana, mais saudável no corpo e na mente


[1] Relato de caso de Tatiana Stanzani Acquarone, enfemeira e facilitadora de amamentação.


Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

15 de jun de 2015

PARTO HUMANIZADO: O QUE É


Vamos começar pelo que o “Parto Humanizado” não é. Ele não é sinônimo de parto natural, na água ou domiciliar. Parto humanizado não significa um “tipo de parto”, ou seja, um modo de parir, uma posição, um local ou uma condição. Parto humanizado é uma abordagem ao parto, uma forma de encará-lo, vivê-lo, concebê-lo e conduzi-lo.

Protanto, qualquer parto pode ser humanizado. Então, pergutam, por que se vê parto humanizado associado geralmente a parto natural ou domiciliar?

Porque o parto humanizado nasceu para resgatar o protagonismo feminino que está associado à fisiologia do parto, ambos vinculados ao empoderamento feminino. Compreendendo cada um desses conceitos ficará claro porque parto humanizado geralmente se identifica com parto natural ou domiciliar.

Com “protagonismo feminino” se quer dizer que a mulher tem um lugar de destaque, que o parto é dela e ela tem uma atitude e postura ativas durante o mesmo. Isso implica uma mulher informada sobre o mecanismo de parto e à vontade no ambiente e com as pessoas (profissionais e não) para vivenciar o parto de forma livre, espontânea – ou seja ativa. Ela não é passiva, submissa, amedrontada, acuada. Ela atua em seu próprio parto.

Com “fisiologia do parto” se entende o mecanismo natural do parto, como ele funciona “ao estado natural, puro” sem intervenções externas (ou internas). Estamos aqui falando do parto animal, mamífero. Este parto segue um certo percurso e chega ao esperado desfecho de forma totalmente natural. Respeitando-o a experiência de parto é muito mais suave e menos dolorida do que quando a fisiologia do parto é desrespeitada ou atravancada por várias interferências externas (médicas e sociais) ou internas (medos).

Com “empoderamento feminino” nos referimos ao efeito que uma condição de preparação ao parto e de parto produz na mulher: um estado interior de poder, força, autoestima, confiança e autoconfiança. Não se trata aqui de poder mental, do ego, do “eu quero”. Trata-se de uma condição interior de poder aliada à confiança em si e na vida. Entrega e alegria, força e doação, vontade e fé.

Quando se quer levar em consideração esses conceitos, eis que a modalidade de parto em que a mulher é mais protagonista e em que a fisiologia é mais livre de atuar é necessariamente a o parto natural e domiciliar. Daí estar o parto humanizado tão associado a parto natural e domiciliar.

Entretanto, parto humanizado não se identifica com essas formas de parto, mas, como dissemos acima, com a abordagem ao parto. Pois, posto que nossa realidade humana não funciona segundo o ideal, temos “n” situações em que o parto completamente natural (sem intervenção alguma) e domiciliar não são possíveis ou desejáveis. Mesmo assim, os critérios de protagonismo feminino, fisiologia do parto e empoderamento feminino podem e devem ser levados em consideração.



Graças ao movimento pela humanização do parto descobre-se sempre mais o quanto o parto é um evento de altíssimo significado psicológico e espiritual para a mulher, seu filho e o casal. É com esta perspectiva em mente que é preciso pensar o parto para conduzi-lo da forma mais respeitosa possível, seja em termos de sua fisiologia como de sua humanidade


Daí a importância de fazer uma boa preparação ao parto, que deve incluir seja informações sobre como funciona o parto como também, e sobretudo, o preparo psico-emocional e espiritual para a chegada do bebê e a maior mudança de nossas vidas. 

10 de mai de 2015

DOULANDO EM SITUAÇÃO DIFÍCIL: PARTURIENTE DESCONECTADA E FAMILIARES DEMAIS POR PERTO

Este relato é surpreendente. Aline demonstrou uma capacidade incrível de administrar uma situação difícil, ainda mais por se tratar de sua primeira experiência de doulagem! Ela teve paciência, bom senso e perseverança. Foi capaz de liderar um trabalho de parto desconectado e invadido por terceiros sem arrogância e sem prepotência, mas com flexibilidade, positividade e verdadeiro talento pela doulagem. Amor à mulher e maturidade emocional para segurar uma onda difícil. Parabéns, Aline! Nossa mais nova doula formada pela ONG Amigas do Parto via Instituto Ser e Saber Consciente.

Relato de parto de Aline dos Santos Rossi (Cuiabá - MT) – primeira experiência de doulagem realizada enquanto se formava doula parto em nossos cursos.

“Meu primeiro encontro foi acompanhando outras duas doulas mais experientes: Carol e Tuanny. A gestante já estava em pódromos, mas fomos chamadas porque existia a possibilidade de

7 de mai de 2015

DOULAGEM DE SUCESSO

Por Maria Zilda Simoni Torres
Assistente de enfermagem e doula
2015


Tivemos nosso primeiro contato, casal e doula. Ouvi atentamente todas as dúvidas e medos do casal, principalmente da gestante. Apresentei informações concretas e fomos quebrando paradigmas no restante de nossas visitas periódicas.

A gestante me procurou por ser seu primeiro filho, primípara, e não querer em hipótese algum uma cesárea. Ela dizia

DIANTE DE UMA GESTANTE QUE QUER CESÁREA - Experiência de uma doula

Por Maria Zilda Simoni Torres
Santo André (SP)
maria_simoni@live.com

Vivi essa experiência com uma amiga, que tinha muito medo do parto normal. Ela ouvia histórias da carrochinha, onde mulheres tinham sofrido violências obstétricas, mulheres que tiveram parto normal e diziam que a dor era horrível, que sofreram fórceps e coisas desse nível.

Ela me deu espaço para conversamos sobre tipos de parto. Foi

6 de abr de 2015

COMO ACOLHER O RECÉM-NASCIDO

Ele chegou ao mundo ontem, nada sabe de si, de quem é, de onde está e de quem realmente são as pessoas à sua volta. Tem emoções e reconhece vozes e sons. Mas não pode enxergar direito, muito menos pensar no que está vivendo. Ele é, simplesmente é: é a fome que contrai seu estômago, é o desconforto da fralda cheia de xixi ou cocô, é o incômodo do frio ou do calor, é a irritação que sons repentinos e altos ou luz intensa e direta provocam. Ele é o vazio da ausência do corpo a corpo, daquele estar grudadinho, quentinho, aconchegado e totalmente seguro – única realidade sólida que ele conhece.

Seus pais estão eufóricos ou cansados, supresos ou exaustos. Familiares vêm e vão. Ilustres desconhecidos para o bebê. Geralmente

27 de mar de 2015

NASCER EM CASA, NASCER EM PAZ...

E eis que o “Dia da Árvore” chegou. Amanheceu 21 de setembro e minha comunhão com o bebê era tanta que eu já pressentia que algo estava por vir. Acordei e quando fui ao banheiro, o anúncio: sangue. A visão me trouxe euforia, como se uma grande festa estava começando. Contei pro meu marido que havia ‘chegado a hora’. Era para ele se preparar. Fomos, os dois, em um dos médicos que me acompanhava no pré-natal e, no exame, eu já estava com 3-4 cm de dilatação. Pronto, era este dia! O grande dia!

Eu oscilei entre chamar assistência (que viria de Porto Velho, capital, há 470 km), ou ficar somente eu e meu

25 de fev de 2015

ESCLARECIMENTOS SOBRE HUMANIZAÇÃO - Entrevista Revista Crescer

1) O movimento que prega um parto mais natural está ganhando forças?
Sim, o movimento que promove a humanização do parto e do nascimento está crescendo no Brasil.


2) Qual a explicação por trás disso: estariam as mulheres mais informadas sobre o assunto, por exemplo?
O primeiro passo na promoção desse movimento veio da parte dos médicos (ReHuNa). Novas evidências científicas colocaram em questão a forma como a obstetrícia é praticada. Essas evidências não são "novas". Já em 1985 a OMS divulgava as Recomendações para o Atendimento ao Parto Normal, que podemos ainda conserar muito mais avançadas do que a maioria dos médicos faz em sala parto hoje em dia. Em seguida, houve uma divulgação do movimento entre as mulheres pela criação do grupo Amigas do Parto do qual fui co-fundadora. Desse grupo nasceu todo o movimento de mulheres pelo parto humanizado no Brasil.
 
3) Parto natural e parto humanizado são a mesma coisa?