6 de abr de 2015

COMO ACOLHER O RECÉM-NASCIDO

Ele chegou ao mundo ontem, nada sabe de si, de quem é, de onde está e de quem realmente são as pessoas à sua volta. Tem emoções e reconhece vozes e sons. Mas não pode enxergar direito, muito menos pensar no que está vivendo. Ele é, simplesmente é: é a fome que contrai seu estômago, é o desconforto da fralda cheia de xixi ou cocô, é o incômodo do frio ou do calor, é a irritação que sons repentinos e altos ou luz intensa e direta provocam. Ele é o vazio da ausência do corpo a corpo, daquele estar grudadinho, quentinho, aconchegado e totalmente seguro – única realidade sólida que ele conhece.

Seus pais estão eufóricos ou cansados, supresos ou exaustos. Familiares vêm e  vão. Ilustres desconhecidos para o bebê. Geralmente muito barulhentos também. Ele se vê mergulhado em uma avalanche de estímulos sensoriais; gente pegando-o no colo, com suas roupas suadas, cheirosas, malcheirosas, ásperas, macias, lisas, grossas...; ouve sons altos, vozes e risos; vê sombras se mexendo rapidamente... Ele pode estar com sono, com sede, com fome, e não saberia dizer. Não poderia avisar ninguém pois sequer sabe o que tem. Só pode chorar e esperar que alguém decodifique seu choro até para si mesmo. Coisa que toda mãe aprende, após um tempo. Torcemos para que esse tempo seja o mais curto possível.

A nova vida que este ser pequenino representa e é há de ser cuidada e olhada a partir do coração. Com um recém-nascido deveríamos despir nossas roupas convencionais, esquecer as modas e colocarmo-nos de alma nua em relação com outra alma nua. Antes de maqueá-lo com roupinhas e interpretações, antes de decidir quem ele vai ser, qual sua personalidade é, antes de associá-lo à mãe ou ao pai, à tia ou ao avô, deveríamos permitir-lhe a liberdade de simplesmente SER. Encararmos junto a ele o mistério de sua identidade e aprendermos a olhar o mundo pelo seus olhos maravilhados e sobressaltados. Mas para isso, precisamos despirmo-nos: das nossas couraças, das nossas próprias poses e crenças, interpretações do mundo e vícios de visão.

Este é o maior e melhor presente que podemos dar aos novos recém-chegados: dar-lhes a chance de descobrir-se e descobrir o mundo à sua volta sem formatação prévia. Permitir que olhem a realidade por seu próprio ângulo. Somente desta forma, eles poderão desenvolver-se como seres únicos e não réplicas de mãmãe ou papai, do titio ou do amiguinho. Pois, não basta nascer, é preciso depois ter condições para florescer.

Como então se recebe um serzinho amado mas desconhecido que entra de repente neste mundo? De braços e de coração abertos. A simbólica dos braços é particularmente significativa. Carregamos em nossos braços aquilo que passa a estar sob nossa responsabilidade. Os braços levam ao colo e ao coração. Sobre o peito, a batida do coração lembra ao bebê o mundo conhecido, devolvendo-lhe a paz. Nosso corpo é seu berço primário, seu principal porto seguro. Somos mamíferos! Um bebê precisa do contato corpo-a-corpo. Não só isso provê calor e acolhimento palpável, como dá fronteiras, limites, contenção. Recorda-lhe à experiência de estar contido no abraço amoroso do útero; continuidade que permite a construção de sua identidade. Não precisamos nós adultos desta contenção quando nos sentimos frágeis e sós? Não é do abraço apertado que nos ampara e segura firme, para que não caiamos e não fraquejemos, que precisamos nos momentos mais delicados? É o ninho dos nossos braços e o rítmo embalador do nosso coração o primeiro cuidado que damos ao nosso amado bebê.

Adriana Tanse Nogueira.
Psicanalista, Educadora perinatal e Life Coach