18 de jan de 2015

CULTURA DO NASCIMENTO NO BRASIL E NA HOLANDA

Patrícia Sulsbach



Os índios viviam naturalmente nas tribos expressando sua cultura através da arte, cerimoniais, costumes. A gravidez e o parto nunca foram problemas. As mulheres automaticamente assumiam a posição de cócoras para terem seus filhos. De fato, algumas mães e crianças morriam durante o trabalho de parto pela falta de um atendimento especializado, como a instrumentação cirúrgica necessária em casos de distócia. Todavia, esses casos eram minoria.



Mais de noventa por cento dos partos aconteceriam espontaneamente, sem necessidade de auxílio nenhum, ao deixar a natureza agir. Menos de dez por cento necessitariam de ajuda de uma parteira bem orientada e destes, menos da metade precisaria de um médico mais experiente. Assim foi em todos os tempos e continua sendo aonde a civilização não chegou para perturbar os fenômenos naturais. As mulheres sadias, de modo geral, assumem a posição acocorada que, para elas, é lógica e, do ponto de vista médico, é fisiológica (Paciornik, 1997).


Com o predomínio da colonização européia no Brasil, formaram-se novos núcleos comunitários e hábitos diferentes. Os partos eram atendidos por mulheres conhecidas popularmente como aparadeiras, comadres ou mesmo de parteiras-leigas. Elas detinham um saber empírico e atendiam domiciliarmente às mulheres durante a gestação, o parto e o puerpério, assim como nos cuidados com o recém-nascido. Estas mulheres eram de inteira confiança do mulherio e eram consultadas sobre temas vários, como cuidados com o corpo, doenças venéreas, praticavam o aborto ou mesmo colaboravam com o infanticídio.



O processo do nascimento  na Antiguidade e até o final da Idade Média era vivenciado no domicílio, com a participação dos familiares, sendo que as mulheres preparavam-se previamente para o trabalho de parto e parto e assumiam posições que julgavam confortáveis. A gravidez, o parto e as práticas e conhecimentos a eles relacionados permaneciam no domínio exclusivo das mulheres (Optiz, 1990). A mudança da vivência do trabalho de parto e parto do domicílio para o hospital e os avanços tecnológicos no atendimento à mulher durante o processo do nascimento apesar de se constituírem modificações significativas na redução da morbi-mortalidade materna e fetal, contribuíram para que a mulher assumisse um papel passivo neste processo. Da mesma forma, na atenção pré-natal ocorreu a expropriação da autonomia feminina e se sedimentou os pilares do modelo tecnocrático e biomédico. A gravidez deixou de ser um assunto de mulheres. Embora não tenha sido descrita explicitamente como doença, a gravidez passou a ser tratada como um problema patológico, necessitando de intervenção médica (Zampieri, 2006).



As escolas de medicina começaram então a ser implantadas desenvolvendo assim a arte obstétrica, onde a maioria dos estudantes eram do sexo masculino. Deste modo, o cuidado às mulheres no período gravídico passou a ser oferecido por homens. A princípio, houve uma resistência das mulheres à assistência masculina, que atendia inicialmente as mulheres mais pobres. As mulheres com maior poder aquisitivo continuavam a ser atendidas pelas parteiras.



O cuidado médico, especializado e baseado em evidências científicas, não tardou a ser o principal tipo atendimento nos centros urbanos do país. Os hospitais tornaram-se os principais pontos de referência para a atendimento ao parto. As parteiras passaram a ser discriminadas, consideradas imprudentes, místicas demais e sem o conhecimento científico necessário para prestar assistência ao parto.



Atualmente, o trabalho delas está restrito a zonas pobres, onde não existem médicos, em comunidades interioranas, onde o acesso a postos médicos e hospitais torna-se difícil, ou mesmo em cidades como Florianópolis, onde algumas parteiras assistem partos domiciliares.



Florianópolis é considerada uma cidade mística, naturalista, onde muitos locais ainda são selvagens. Há contos, lendas, histórias sobre a magia e o poder das bruxas. As praias, as dunas, as lagoas, as trilhas, os vilarejos aqui existentes nos proporcionam um contato mais íntimo com a natureza. Talvez por isso, muitas mulheres optam por ter filhos em casa, junto da família. E para tal contam com a ajuda de parteiras tradicionais, agora já não muito comuns na ilha, mas ainda existentes.



Alguns profissionais da cidade, enfermeiras e médicos, sensíveis a grande demanda de mulheres que desejam parir no domícilio, oferecem assistência individualizada e com os saberes “científicos” que são esperados atualmente para se receber um atendimento de qualidade e segurança. Mesmo assim, esses profissionais não são apoiados pelo Governo e Sistema de Saúde, visto que quando a mulher deseja esse atendimento, deve pagar ou contribuir por ele.



Todavia, além disso, o parto domiciliar no contexto brasileiro não é mais bem aceito, pois, o Brasil, nos dias de hoje, atinge os maiores números de parto cesárea do mundo, ultrapassando, muito além do que preconiza a Organização Mundial da Saúde, que seria uma porcentagem de dez a quinze por cento de todos os partos. Em algumas maternidades e clínicas do país, este número ultrapassa cinquenta por cento.



Ao refletir sobre as possíveis causas da adoção desse modelo poderíamos pensar no atrativo que é a implantação de alta tecnologia para resolver qualquer problema de saúde, ou ainda deveríamos pensar se não seria apenas uma cópia do modelo norte-americano. Não podemos esquecer do desequilíbrio ambiental, estresse emocional, violência enfrentados hoje pela humanidade. Isso sem falar da manipulação da mídia sobre o mundo, principalmente no ocidente e também no esquecimento do ser humano como um sujeito, que é capaz de decidir por si mesmo, de acordo com suas vivências e experiências.



Difícil falar de uma causa, nem nos cabe aqui tentar desvendá-las, nosso objetivo é antes confrontar modelos alternativos de como nasciam e nascem os bebês. O que vai ser apresentado aqui é o relato das seguintes experiências: primeiro, um estágio durante seis meses, como estudante de Enfermagem, numa maternidade pública na cidade de Florianópolis, onde pude constatar o atendimento típico oferecido às mulheres, comum em muitas maternidades do país; segundo, um estágio de um ano, acompanhando e atendendo consultas pré-natais em unidades locais de saúde (ULS) de Florianópolis; terceiro, um estágio de especialização, na Holanda, acompanhando o atendimento oferecido às gestantes por obstetrizes do sistema holandês de saúde. Além disso, vou utilizar os dados da pesquisa e dos relatos do sociólogo americano De Vries sobre o modelo de cuidados de maternidade na Holanda. Para expor a cultura da maternidade dos povos indígenas, vou me utilizar dos relatos do obstetra Paciornik.



Como sabemos, a gravidez, planejada ou não, é um período delicado, envolve uma série de transformações físicas, emocionais e traz com ela mudanças de laços afetivos, interpessoais. A cultura familiar hoje é diferente do passado, não há mais grandes famílias, os “conselhos” e tradições passados de geração em geração parecem já não ter tanta importância. Muitos jovens casais não permitem intromissões nos cuidados com a mãe e com a criança. Outros, pela distância, não participam mais das tradições familiares. Seja qual for o motivo, casais, mães, famílias buscam quase sempre a ajuda de profissionais especialistas na área para esclarecimento de dúvidas.



De acordo com Diniz (2001), a autonomia da mulher no parto está diretamente relacionada à sua capacidade de escolher e decidir sobre o tipo de parto e sua saúde, livre de coerção e violência e de lutar pelos seus direitos. Isto ocorre na medida em que recebe informações e tem acesso a alternativas não farmacológicas, baseadas nas evidências, que contribuam para facilitar o processo de nascer. O fato de ser acolhida, reconhecida como pessoa, ter informações, ser consultada sobre os procedimentos e participar é essencial. Nesse sentido, o diálogo entre o profissional e a mulher já na gravidez é fundamental para fortalecer as capacidades das gestantes e garantir uma assistência eficiente e humanizada.



O período pré-natal é uma época de preparação física e psicológica para o parto e maternidade. A mulher está direcionada e envolvida com a gravidez e com o bebê e sensível à escuta. É um momento que possibilita intenso aprendizado, sendo a oportunidade para os profissionais de saúde desenvolverem a educação como dimensão do processo de cuidar. Tal prática pode contribuir para que a mulher adquira autonomia, aumente a capacidade para enfrentar situações de estresse e crise e possa decidir sobre sua saúde (Rios; Vieira, 2007).



As condutas baseadas somente nos aspectos físicos não são suficientes. Elas necessitam ser potencializadas, especialmente pela compreensão dos processos psicológicos que permeiam o período grávido-puerperal. Nesse sentido, faz-se necessário que o profissional de saúde aborde a mulher na sua inteireza, considerando a sua história de vida, os seus sentimentos e o ambiente em que vive, estabelecendo uma relação entre sujeito e sujeito e valorizando a unicidade e individualidade de cada caso e de cada pessoa. Muitos dos sintomas físicos manifestos mascaram problemáticas subjacentes. Por isso, em vez de fazer uma série de rápidas perguntas, específicas e fechadas, é importante encorajar a mulher a falar de si. Saber ouvir é tão importante quanto saber o que dizer (Brasil, 2006).



Outra habilidade importante de ser desenvolvida pelos profissionais de saúde é a empatia, que se refere à habilidade de compreender a realidade de outra pessoa, mesmo quando não se teve as mesmas experiências. Uma presença sensível infunde serenidade e confiança à mulher. Hoje, os aspectos emocionais da gravidez, do parto e do puerpério são amplamente reconhecidos (Brasil, 2006).



Infelizmente, as consultas pré-natais geralmente não duram mais do que poucos minutos. O limite máximo para uma consulta na rede pública é de vinte minutos. O Sistema Único de Saúde (SUS) prioriza no mínimo seis consultas pré-natais por gestante. Se somarmos o tempo de cada consulta, o tempo total que a gestante receberia (indo a todas as consultas) atendimento profissional seria de 120 minutos, ou seja, duas horas. Convenhamos que para uma mulher cheia de dúvidas e emocionalmente frágil é um tempo insuficiente, definitivamente. Isso sem falar que geralmente as consultas não passam de poucos minutos e estão bem focadas na medida do peso da mãe e da altura do fundo uterino, na ausculta cardíaca fetal, no acompanhamento e pedido de exames. No entanto, esses procedimentos não são suficientes para satisfazer as necessidades psíquicas da mulher e família, fato este que leva a mulher a buscar por informações de outras maneiras.



Muitas dessas mulheres, depois de pesquisas na internet, têm mais dúvidas, outras ficam intrigadas, ainda há aquelas que sentem medo depois de ler e reler depoimentos de outras mulheres acerca do parto, obtendo informações nem sempre verdadeiras e mitificando a própria gravidez.



Poucos são os locais que oferecem grupos de gestantes, escuta sensível, apoio emocional. Na luta pela sobrevivência, muitas mulheres trabalham muito durante o período gestacional, disponibilizando assim também pouco tempo para o cuidado de si mesma e para seu bebê. A empatia entre profissional e gestante facilitaria a percepção de motivos que levariam a mulher a viver um parto traumático e das relações interpessoais ou qualquer problema que pudesse afetar o vínculo entre ela e seu filho. Hoje em algumas ULSs já se prioriza o atendimento por um único profissional durante toda gravidez.



Algumas mulheres sentem-se mais seguras depois de realizarem os exames que lhes são pedidos no pré-natal, principalmente o ultrassom. Algumas pagam para a realização de ultrassons extras, já que a rede pública oferece no máximo dois exames para cada gestante. A humanidade que até 1960 não disponibilizava de aparelhos ultrassons para saber as condições de saúde do bebê, agora torna-se dependente e disponibiliza este importante instrumento rotineiramente como sendo a única e principal maneira de se comprovar que está tudo bem, proporcionando assim o falso conforto e segurança a todos.



Muitas mulheres não são informadas sobre qual momento do trabalho de parto devem procurar a maternidade. Algumas vão bem antes da hora, fato que as obriga a ir e voltar inúmeras vezes, ou esperar pelas redondezas da maternidade antes do momento certo para internação.



Outras mulheres, sem conhecimento prévio da maternidade, acabam indo a qualquer uma por indicação de amiga, vizinha, parente ou por ser  a mais próxima de casa. Muitas vezes, a falta de leito as obriga a procurar outra maternidade. Quando se encontra, um alívio. Após a avaliação do profissional, é confirmada sua internação.



Todavia, com a internação há uma mudança radical de ambiente para a gestante. Algumas  maternidades ainda dispõem de práticas rotineiras como a tricotomia (raspagem de pêlos) e flitenema (esvaziamento intestinal). A mulher deve colocar a roupa oferecida pelo hospital. O ambiente muitas vezes não está seguro, ela está fora do ambiente familiar, as pessoas são estranhas, alguns profissionais são cordiais, outros nem tanto, muda-se o plantão, há gritos e choros de outras mulheres, ela sente a vergonha de mostrar o corpo para qualquer profissional. Muitas vezes não tem acompanhante, nem a confiança básica em si mesma, nem ao menos informações, o bebê das outras nasce, menos o seu, as contrações cessam, coloca-se o soro com ocitocina na corrente sanguínea, as contrações aumentam, tornam-se insuportáveis, o bebê entra em sofrimento fetal, resultado: a necessidade da cesárea.



Outra  possibilidade é que se está indo tudo muito bem, forte dores mas o bebê não está em sofrimento fetal, sem indicação de cesárea. A dilatação está total, corre-se para sala de parto, a mulher tenta caminhar com o bebê quase nascendo, e que muitas vezes nasce pelo corredor, outras vezes cai pelo chão. Se há tempo, a mãe pode custosamente chegar na cadeira de parto, na sala cheia de luzes, inúmeros aparelhos, vários profissionais. Alguns rindo de um lado, falando da programação da noite, outros com pressa para que nasça logo para fazer as anotações rapidamente e passar o plantão. Onde está a mulher como sujeito nesta situação?



Ela é uma paciente, deitada na cadeira de parto, frágil, tensa, sendo obrigada a fazer força durante as contrações, cortada muitas vezes desnecessariamente através de uma episiotomia. Mas afinal, o bebê nasce. Corta-se rapidamente o cordão umbilical para facilitar a avaliação do profissional responsável pelo bebê, ou porque é rotina cortar o cordão logo que se nasce. Escuta-se o choro da criança, pronto, o bebê nasceu.



A mulher continua na cadeira, com as pernas abertas para receber os pontos onde lacerou. O bebê fica no berço aquecido, ou é levado para um banho rápido com pulserinhas para não ser trocado por outro bebê, ou para a mãe ter certeza que aquele é o seu filho. Ninguém pergunta a ela se o banho tem que ser dado naquele momento, se ela quer seu filho no colo, ou no banho, ou no berço. Neste momento se respeita as rotinas da instituição.



Sabemos que as primeiras horas após o parto são fudamentais para o desenvolvimento do vínculo afetivo entre a mãe e o recém nascido (RN), que uma separação nesta hora pode causar traumas para ambos e que não traz beneficio algum.



Rotineiramente, a mulher permanece na maternidade com a bebê por dois dias, ou seja, 48 horas, não havendo comprovação da necessidade para tal. Se o parto foi cesárea, por três dias é obrigada a permanecer na maternidade. Muitas vezes várias mães e RNs precisam dividir o quarto entre si, fato que não é agradável devido a falta de privacidade e conforto a todos.



A saída da maternidade é outro grande desafio para os RNs e suas mães. A chegada em casa, muitas vezes acompanhada de familiares, amigos ou até mesmo sozinhas, é um momento crítico e pode trazer uma série de dificuldades. Atualmente a licença maternidade é de seis meses, o que permite durante este tempo a atenção integral à criança, além da possibilidade da amamentação exclusiva, se a mãe assim desejar.



Uma dificuldade adicional para muitas mulheres após o nascimento de um filho é um período de humor deprimido, muitas vezes chamado de “melancolia da maternidade” ou “melancolia pós-parto”. As estimativas variam, mas os estudos ocidentais sugerem que entre metade e três quartos das mulheres passam por um breve período em que choram com freqüência e se sentem deprimidas. A maioria das mulheres supera essa depressão em alguns dias mas 10 por cento das mulheres parecem experienciar um transtorno de humor mais severo (CAMPBELL et al, 1992 apud BEE, 1996, p.92).



Os sintomas de choro e tristeza, em geral, acompanhados de uma falta de confiança em si e de um sentimento de incapacidade. Nesse contexto psicológico, a mulher toma qualquer alteração somática, por menor que seja, como um obstáculo intransponível. (Szejer; Stewart, 2002).



O companheiro, neste período, pode se sentir participante ativo ou completamente excluído. Se o casal já possui outros filhos, é bem possível que apareça o ciúme, a sensação de traição e o medo do abandono, que se traduz em comportamentos agressivos por parte das outras crianças (Brasil, 2006).

Enquanto algumas mulheres não vêem nenhuma incompatibilidade entre sua função de mãe e seu papel de esposa e mulher sedutora, e conseguem conciliar esses papéis sem dificuldades. Alguns homens conseguem ver nas mulheres apenas uma imagem de mãe, enquanto outros vêem sua companheira ainda mais sedutora (Szejer; Stewart, 2002).



Em relação à amamentação, a idéia que uma boa mãe deve amamentar seu filho, além de ser culpabilizante, não é inteiramente fundada. Existe para cada mulher uma forma própria de ser para o seu bebê, e para ela, essa forma não passa, necessariamente, pela amamentação ao seio. Começar amamentar nem sempre é fácil, é uma aventura a dois que começa entre mãe e bebê, é um treinamento recíproco, que pode exigir um certo tempo. Durante os primeiros dias, a mulher pode ter necessidade de um apoio para superar as pequenas dificuldades (Szejer; Stewart, 2002).



Ainda na que diz respeito à amamentação, a mulher pode sentir o medo de ficar eternamente ligada ao bebê, ter uma excessiva preocupação com a estética das mamas, duvidar da sua capacidade de cuidar e se o leite é suficiente e atende as necessidades do bebê (Brasil, 2006).



As equipes de saúde contatam que, geralmente, a amamentação ao seio corre bem para as mulheres que desejam profundamente fazê-lo. As dificuldades se apresentam para aquelas que estão ambivalentes, mas, se apoiadas psicologicamente, são superáveis (Szejer; Stwart, 2002).



As visitas domiciliares não são comuns neste período. Contudo, seriam de grande importância haja vista as inúmeras dificuldades enfrentadas pela mulher e família no período pós-parto. As visitas visariam o apoio à amamentação, o suporte emocional, o encorajamento neste momento de maior vulnerabilidade psíquica da mulher, a atenção às relações interpessoais na família e a interferência destas na saúde da mãe e do bebê.



O programa do Ministério da Saúde “Atenção Primeira Semana Saúde Integral”, é uma oportunidade para avaliar as condições de saúde da mãe e bebê na Unidade Local de Saúde e é quando o teste do pezinho é recomendado. A consulta puerperal deve ser feita até os 42 dias após o parto.



Podemos dizer que a Holanda tem outra história, outra cultura, exclusiva de sua gente, de seu país. Mas por que na Holanda, um dos países mais industrializados e desenvolvidos do mundo, o nascimento é tão simples e livre de qualquer interferência? Por que os índices de mortalidade materna e infantil são tão baixos e por que ainda quase quarenta por cento das mulheres optam por terem seus bebês em casa, junto da família?



Na Holanda, um país localizado no oeste europeu, com 16 milhões de habitantes, um dos países economicamente mais desenvolvidos do mundo, onde o aborto e a eutanásia são permitidos, o parto domiciliar na década de 50 do século passado chegava a 76% (Centraal Bureau Voor de Statisesk, 1899-1989), sendo que no ano de 2000, este percentual era de 30% (VRIES, 2005). Atualmente este número é de aproximadamente 35%. Os índices de mortalidade materna e infantil na Holanda são os menores do mundo. No ano de 2006, o índice de mortalidade infantil era de 4,4%, segundo a OECD (Organization for Economic and Development).



A Holanda é tão tecnologicamente sofisticada como qualquer nação moderna, mas ainda assim as obstetrizes atendem aproximadamente metade de todos os nascimentos do país usando poucas dessas tecnologias modernas. Quando a mulher suspeita que esteja grávida ela faz um teste em casa ou irá a seu médico de família. Aproximadamente todas as pessoas no país são registradas nos médicos de família de seu bairro, que também serve de intermediário antes da consulta com um especialista (Vries, 2005).



O seguro de saúde da Holanda é organizado pelo governo e chama-se Sick Fund, que atende dois terços da população. Não importa o tipo de parto nem sua duração, o valor cobrado é o mesmo. A mulher é livre pra escolher o local em que vai parir, no entanto, se tem uma gravidez saudável e deseja ter o parto no hospital ao invés de ter em casa deve pagar mais por isso. É um sistema extremamente racional. O terço restante da população é atendido por seguro privado, mas se preferir pode ser atendido também pelo Sick Fund.



A obstetriz, verloskundingmidwife, é a pessoa capacitada para atender toda gravidez seguindo o Manual Holandês de Ginecologia e Obstetrícia, elaborado por médicos obstetras e verloskundings e sendo atualizado freqüentemente. Quando a gestação apresenta alguma anormalidade, a obstetriz encaminha a gestante a um especialista, ou seja, a um médico obstetra. A gestante tem a liberdade de decidir se deseja ter o parto em casa ou no hospital.



Os procedimentos realizados no pré-natal são básicos: medição de peso, altura, ausculta dos batimentos cardíacos fetais, pedido e acompanhamento de exames. Geralmente são oferecidos cursos e palestras para casais com informações acerca da gravidez, parto e puerpério. Há também locais de yoga e relaxamento para gestantes.



Para algumas mulheres o parto ideal é aquele onde se está acompanhada da família e amigos. Outras mulheres preferem estar sozinhas. Algumas mulheres desejam analgesia para o alívio da dor, outras escolhem dar à luz sem assistência de drogas.



Se a opção é o parto domiciliar, a família telefona à midwife avisando o início do trabalho de parto. Se a constatação for positiva do início do trabalho de parto pela obstetriz, ela permanece na casa da família até algumas horas depois do nascimento prestando a assistência necessária.



Quando o parto é realizado no hospital, após duas horas a família recebe alta. Por oito dias a puérpera e o recém-nascido recebem, caso queiram, cuidados domiciliares de uma enfermeira especialista, e o período diário pode variar de três a seis horas, dependendo do seguro da família.



A cuidadora domiciliar é especializada no período puerperal. O programa para sua educação tem duração de um ano e meio e após o término está apta a cuidar da mãe e bebê nos primeiros dias pós-parto. Em geral, permanece 49 horas junto da família, divididas em 7 horas por dia, porém caso haja necessidade,  pode aumentar seu tempo de permanência, recebendo também mais dinheiro  do governo. Além das avaliações físicas da mãe e do bebê, oferece o suporte emocional e sua presença gera, provavelmente, estado de confiança maior para a mulher, evitando assim, os problemas que podem ser causados pela alteração emocional essencial provisória do período puerperal. Ela também cuida dos serviços domésticos, faz compras e cozinha.



Em 1463 Margriete Wechels já trabalhava como parteira. Pessoas pobres não pagavam e as ricas faziam contribuições para serem atendidas. Se o parto complicasse, ela chamava um médico. Assim, ela se transformou numa grande facilitadora para aspirantes a midwives (Vries, 2005).



No final do século XVIII as cidades mais importantes da Holanda introduziram estatutos regulando a atividade de parteira. No século XIX as leis municipais foram sendo substituídas por leis nacionais. O ato médico de 1865 confirmou o papel oficial da midwife dentro da profissão médica somente para atender os partos naturais, sem intervenção. Em 1861 foi criada a primeira escola estatal em Amsterdã, e no ano de 1932, as midwives foram autorizadas a dar assistência a gestantes na segunda metade da gravidez e, finalmente, em 1951, foi permitido a midwife prestar a assistência durante toda gravidez.



Vries (2005) relata as dificuldades que as midwives enfrentaram na história. Em 1968 o governo aprovou um plano que somente enfermeiras graduadas poderiam prestar exame para fazer o curso de midwife, mas após muita luta, conseguiram a revogação deste plano. A partir de 1994, foram instituídos quatro anos de estudos para se tornar midwife, onde no primeiro, o foco é o curso normal da gravidez, parto e pós-parto, o segundo, o estudo das patologias, e nos terceiro e quarto anos, o trabalho é integrado em prática e teoria.



Há um dilema na Holanda sobre integrar a midwifery na universidade, pois assim as midwives seriam mais reconhecidas pelo público e por outros profissionais. Outros acham que está bom assim, já que o sistema funciona bem.



Na virada do século passado, as midwives fizeram greve para protestarem contra os baixos salários e a sobrecarga de trabalho. Como os jornais estavam à procura do primeiro bebê a nascer no novo milênio, a greve teve muita repercussão. A “greve das midwives” teve bons resultados, pois o número de cadeiras na escola de midwifery e o salário aumentaram e o número de partos por ano para cada midwife diminui, assim como a carga horária semanal a que estavam responsáveis (Vries, 2005).



Atualmente as midwives na Holanda têm um papel fundamental na sociedade. Elas são referência para o mundo, já que pesquisadores de diversas partes vão à Holanda somente para estudar o sistema de nascimento holandês.



Ninguém pareceu estar apto para explicar o modelo de nascimento holandês. Muitos têm tentado. Jornalistas, médicos, historiadores e sociólogos que escreveram sobre o assunto sentiram-se obrigados a oferecer razões para a persistência do nascimento domiciliar lá, mas as explicações não são convincentes. Alguns dizem que é devido ao não desejo dos Holandeses à mudança de idéias, outros dizem que é um retrocesso, alguns acreditam que é em virtude da geografia das terras baixas, muitos associam o modelo ao Calvinismo, vários sugerem que é pelo porte físico da mulher holandesa, grande e saudável. Interessantes explanações, mas insuficientes (De Vries, 2005).



Enquanto o modelo de família nos séculos anteriores é geralmente associado com a repressão da mulher, na Holanda ela podia gozar de considerável liberdade, ao contrário de suas vizinhas européias, ela podia fazer contratos comerciais, beijar e abraçar em público, acompanhava estrangeiros, divertia-se na noite em tavernas bem longe de casa (Schama, 1998 apud De Vries, 2005).



Kloosterman apud De Vries (1996) diz que talvez parte da explicação do maternity care na Holanda é que a população de homens foi de pescadores, marinheiros ou fazendeiros. Com a ausência masculina em casa, as mulheres tornaram-se fortes e unidas, o que também reflete esta condição independente no momento do parto. Van Daalen (1998), socióloga holandesa, oferece mais uma análise. Ela acredita que a nuclearização precoce da família holandesa afastou os partos hospitalares. Em outros países a nuclearização da família ocorreu simultaneamente com a industrialização e foi marcado pelo crescimento da procura do profissional para eventos como nascimento, doença e morte.



Na realidade, o modelo de nascimento no país é o produto de um sistema de regras, regulações, programas educacionais, acordos entre profissionais e os elementos deste sistema são constantemente revisados e negociados.



Por outro lado, este pequeno país não idolatra pessoas, heróis. Exceto a estátua de Anne Frank, em Amsterdã, não existe nenhuma outra, ao contrário da característica das demais grandes cidades européias, como Roma, Londres, Paris. Isso pode refletir na característica dos médicos do país, que não assumem papel de heróis, principalmente na área obstétrica, onde parece haver bastante respeito na naturalidade do nascimento e o foco é sempre a mulher e o bebê.



Podemos agora pensar no parto das índias, no parto nas comunidades com parteiras, no parto das brasileiras de hoje e no parto das holandesas. São culturas muito diferentes, sem dúvida, mas há algo em comum: todas zelam pela sua própria saúde e pela saúde dos seus filhos, todas querem ser livres para decidir sobre sua vida, seu parto, sobre cuidados com seu filho. Nosso dever como profissionais é ouvi-las e orientá-las, respeitando o que sentem, o que pensam e o que querem.



Através deste trabalho desejei relatar diferentes culturas de nascimento para que possamos refletir na vida simples, no diálogo franco com o profissional, com amigos, com parentes, com pessoas da própria comunidade acerca dos problemas comuns do cotidiano, da gravidez, da sexualidade ao invés da implantação da alta tecnologia e aumento dos gastos financeiros de maneira desnecessária contribuindo para a desvalorização da mulher como sujeito capaz de decidir sobre si mesma.





Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Pré-natal e puerpério atenção qualificada e humanizada. Manual Técnico. Brasília: Ministério da Saúde, 2005.

BEE, H. A Criança em desenvolvimento. Porto Alegre: Arimed, 1996.

Centraal Bureau voor de Statistiek, 1899-1989: Negentig jaren statistiek in tijdreeksen, ´s-Gravenhage, CBS Publikaties, 1989; Central Bureau voor de Statistiek, Geborenen naar aard verloskundige hulp en plaats van geboorte, Vooburg, CBS, 1990,1992; TNO, De Thuisbevalling in Nederland. Eindrapportage: 1995-2000 (Home birth in the Netherlands. End report: 1995-200). TNO-Preventie en Gezondheidt, January 2002. Leiden.

DINIZ, C.S.G. Entre a Técnica e os Direitos Humanos: possibilidades e limites da humanização da assistência ao parto. São Paulo, 2001. Tese (Doutorado em 2001 ). Faculdade de Medicina/USP, 2001.

Organization for Economic Cooperation and Development. OECD. Country Statistical Profiles. Health Data 2006, Disponível em www.oecd.org. Acesso em: 10 jun. 2009

PACIORNIK, M. Aprenda a nascer e a viver com os índios. Rio de Janeiro: Afiliada, 1997. 154p.

RIOS, C.T.F; VIEIRA, N.F.C. Educational action in prenatal care: a reflection on nursing consultation as an opportunity for health education. Ciênc. saúde coletiva , Rio de Janeiro, v. 12, n. 2, 2007.

SZEJER, M; STEWART, R. Nove meses na vida da mulher. Uma abordagem psicanalítica da gravidez e do nascimento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.

VRIES, R. A Pleasing Birth: Midwives and Maternity Care in the Netherlands. Amsterdam: University Press, 2005. 275p.

ZAMPIERI, M.F.M Cuidado Humanizado no Pré-Natal: um olhar para além das divergências e convergências. Florianópolis, UFSC, 2006. 437p. Tese (Doutorado em Enfermagem, área de concentração: Filosofia, Saúde e Sociedade). Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Universidade Federal de Santa Catarina, 2006.



PROFESSIONAL PROFILE

Degree in Nursing: Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. Degree thesis entitled "Socializing Knowledge, Experiences and Technologies of Care in the Birth Process: Contributions and Benefits”. Qualitative research focusing the support and care of parturient women, users of a Local Health Unit (LHU), that participated of an educational process addressing the birth process and the technology of care. Its goal was to determine the importance of the educational process, the contributions of socializing knowledge on the birth process, and how technologies of care, practiced during pregnancy, can be efficient, from the parturient's point of view. Technology of care are therapeutic, non pharmacological alternatives, shared with the future mothers to help them in the reduction of painful sensations and by bringing awareness of their bodies and their own potential. She has participated of work shops and courses about pregnancy, labor and birth with Janet Balaskas at the Active Birth Centre in London. She has done trainning at the Verloskundig Centrum Roosendaal in Holand developing the following activities: ante-natal controls, pregnancy, birth and pos-partum home and hospital assistance. She has been teaching to students of nursing about pos-partum care at the hospital.

Email: patricia.sulsbach@hotmail.com