4 de set de 2015

A MÃE APÓS A CHEGADA DO BEBÊ

Por Verena de Magalhães Ballalai Alves de Almeida

A chegada do bebê é uma festa! Todos querem conhecer, muitos querem pegar, carregar, beijar... É importante avisar aos amigos e familiares se deseja receber visitas na maternidade e quando deseja começar a receber visitas em casa. E falar as visitas quanto as suas regras e rotinas nos cuidados como bebê.
Particularmente, são desaconselhadas as vistas na maternidade. A mãe está recebendo cuidados da equipe da maternidade a todo instante, ainda está em fase de adaptação à nova realidade, aprendendo a amamentar e cuidar do bebê. E pelo menos nos 2 primeiros meses em casa, ainda está se adaptando à nova rotina: tanto a mãe quanto o bebê! É uma fase em que a mãe ainda está aprendendo a decodificar cada chorinho, ainda está estabelecendo novos hábitos na casa, está conhecendo seu filho e se conhecendo como mãe. A rotina estabelecida para o bebê não deverá ser quebrada pelos visitantes, quando as visitas já estejam liberadas. Se o bebê estiver dormindo por exemplo, não é aconselhado acordá-lo para que seja visto/admirado. O sono do bebê deve ser respeitado.
Quando nos vemos grávidas, somos bombardeadas pela descoberta de tantas coisas lindas e muitas vezes ditas como imprescindíveis para a chegada do bebê. Mas será que eu realmente preciso do mordedor da moda caríssimo e com a mesma função de qualquer mordedor? Será que aquele carrinho da minha amiga ou daquela artista que eu vi na revista realmente é adequado pra mim? Quantas roupas o bebê realmente precisa ter? Realmente preciso comprar uma redinha de proteção para dar frutas ao bebê e não permitir que ele entre em contato direto com o alimento no tamanho e texturas adequados para a idade após os 6 meses da amamentação exclusiva? Absorvente para o seio é realmente o mais indicado ou existe o risco de aparecimento de fungo e a concha seja mais adequada? Mas a concha flexível ou rígida? Onde vou amamentar meu bebê com conforto? Enfim... São tantas coisas para pensar. Tantos itens supérfulos e tantos realmente imprescindíveis que na hora de montar a lista do enxoval, é necessário ter cautela, refletir sobre o que é realmente importante e necessário e neste momento, uma ajuda especializada é muito bem vinda.
É importante que logo após o parto, a parturiente possa falar sobre sua experiência de parto e elaborá-la.

Muitas vezes tão temido e ao mesmo tempo tão desejado, o retorno ao trabalho é um assunto delicado. Temido pois será a primeira vez desde o nascimento que a mãe irá se separar do bebê por um período maior e necessitará que outra pessoa cuide dele enquanto estiver no trabalho. E desejado, pois muitas vezes, a mãe mesmo tendo prazer em estar em casa cuidando de seu bebê, percebe em alguns momentos a falta dos seus outros papéis, como o laboral por exemplo. É comum a mãe repensar seu ritmo e satisfação no trabalho, porém sem abandonar a atividade laboral e sim a busca de uma nova atividade que lhe proporcione satisfação e condições de poder passar mais tempo com seu filho. A mãe precisa organizar e definir quem ficará com seu bebê enquanto ela estiver no trabalho, quais as vantagens e desvantagens de cada opção (familiar, babá, creche), se ainda estiver amamentando, como realizará a ordenha e armazenará o leite materno etc. 


Verena de Magalhães Ballalai Alves de Almeida é terapeuta educacional e educadora perinatal(pela ONG Amigas do Parto/Instituto Ser e Saber Conscienteem Salvador-BAballalai@gmail.com

PARTO NATURAL, PARTO NORMAL E PARTO HUMANIZADO: ESCLARECENDO AS IDEIAS

Por Verena de Magalhães Ballalai Alves de Almeida

Parto natural: parto por via vaginal,onde as intervenções médicas são realizadas somente quando há necessidade, o que ocorre pouco.

Parto normal: parto por via vaginal, com a presença de intervenções médicas, muitas vezes desnecessárias.


Parto humanizadoO “parto humanizado” não é um tipo de parto. O nascimento do bebê pode ser por via vaginal (parto “normal” ou natural) ou cirúrgico (cesáreo). No parto, a mulher é ativa, participa do processo. O parto humanizado é na verdade um modo de entender, abordar e conduzir o parto. No parto humanizado a fisiologia do parto é respeitada, e as intervenções, inclusive a cesárea, só são realizadas quando realmente necessárias. O parto humanizado empodera a mulher e acolhe com sensibilidade o recém-nascido. Neste sentido, a humanização do parto é um processo de ampliação da consciência, pois coloca a mulher como protagonista, a mulher participa das decisões sobre seu corpo e seu parto. A mulher passa ter acesso a informações que até um tempo atrás eram negadas a ela e de posse dessas informações pode decidir junto com a equipe obstétrica quanto as condutas da sua gestação e parto.   


Verena de Magalhães Ballalai Alves de Almeida é terapeuta educacional e educadora perinatal(pela ONG Amigas do Parto/Instituto Ser e Saber Conscienteem Salvador-BAballalai@gmail.com

2 de set de 2015

DOULA: QUAL A FINALIDADE?

A doula é uma mulher que dá apoio. Apoia a mulher e apoia à parteira. Uma figura ambivalente faz um pouco de tudo e de fato não possui nenhuma especialização. A  doula faz a diferença justamente naqueles espaços obstétricos onde há falta de elemento humano. Sendo uma carta magna da mulher. Uma carta que uma mulher pode usar ou não, porque doulas não são indispensáveis. Doulas são úteis onde existe uma carência de respeito, confiança, carinho, informação na relação entre grávida e seu médico ou a grávida e o hospital em toda sua equipe de ilustres desconhecidos sem vulto e sem simpatia. 


Bruna Celia da Silva Lima, Educadora perinatal, Rio de Janeiro (RS) limabrucs@gmail.com. Formada ONG Amigas do Parto.

25 de ago de 2015

VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA E PEDIÁTRICA

Adriana Tanese Nogueira

A mulher quer um parto natural hospitalr. É assistida por uma médica que se diz humanizada e que trabalha com uma obstetriz (supostamente humanizada). A parturiente tem um trabalho de parto intenso, com muita dedicação, coragem, fé e amor. Marido e doula em sintonia. União dos três, conectados na mesma direção...

Mas a médica tem outros planos... A espertinha! E seus planos ganham a jogada, afinal ela é A Médica. Trabalho de parto, diz ela, não se faz em banheira "porque isso daqui não é spa", e ela também tem certeza que "você tem que me escutar porque Eu Sou Sua Médica!". Perturba que perturba, a Doutora consegue o que quer. Cesárea. Enqaunto isso, chega a pediatra irritada por "mais um parto vaginal" (e acrescentem aqui as xingações que ela omitiu de falar em voz alta). Aproveita da oportunidade e... se vinga sobre o bebê pelo que considera uma absurda escolha da mãe e contra a qual ela, pediatra, tem algum tipo de tabu mais forte do que uma crença religiosa. Assim, apesar de ter nascido sob os olhos de todos em boas condições, o bebê é declarado "nascido morto", com apgar 0. 

Protocolo neonatal em vigor. Sirenas apitando. Sua Senhoria A Pediatra Neonatologia sentenciou: bebê morto no primeiro minuto (não importa se 5 minutos depois foi para Apgar 10). A pobre criatura, ao invés de ser recepcionada pelos braços acolhedores de sua mãe - que não sabe ter sido ludibriada pela médica humanizada e está agora feliz por ver seu filho pela primeira vez - é encarada pelo ódio irracional da pediatra e encima dele despenca a enxurrada de intervenções desnecessárias, protocolares, inevitáveis... 72 horas sem comer, isolado do mundo e de sua mãe, manuseado, observado, examinado de cabo a rabo... E assim se recepciona um ser humano. 72 horas que devem lhe parecer longuíssimas pois são suas primeiras nessa vida. E está só. Os humanos que têm a sua volta não são amigos.

Por que as mães aceitam? Porque estão alienadas de quem são e logo de seu poder. No Call the Midwife, seriado americano que se pode assistir na Netflix, diante de uma situação parecida a puérpera responde: "Eu sou o que ele precisa. O bebê fica comigo." E seu marido lhe dá um beijo na testa. Estamos aqui numa época em que a mulher tinha o poder da maternidade assumido por elas e reconhecido socialmente. E ainda assim, aquele é um filme, uma reconstrução... Porém, podemos dizer que as mulheres, 150 anos atrás por serem sobretudo donas de casa e mães, exerciam um poder social que era oficialmente reconhecido por elas e por todos. Logo, elas tinham mais chances de serem respeitadas quando clamavam sobre verdades/necessidades relativas ao âmbito social de poder delas, a saber o universo femininao. Não existia a medicina intervencionista e tecnológica e as parteiras ainda detinham poder reconhecido.

Hoje estamos em outra época e com outras mulheres. Hoje as mulheres não se reconhecem detentoras de um conhecimento específico nesse âmbito. Ser um mulher bacana, f*a, é ser uma super profissional que ganha muito dinheiro. Hoje uma médica que se sente f*ona tem como cabeçalho de sua página no facebook não um símbolo de sua profissão, vocação, valores humanos, missão comunitária, mas um manequim representando uma boneca da Disney com pérolas (falsas, claro). A isso a medicina se reduziu: a bijuteria. De prática nobre virou espetáculo e exibição de egos (também falsos). 

Profissionais como estes estão em perfeita sintonia com a recém-parida que se vê retirado seu bebê por motivos incompreensíveis a ela mas que aceita. São dois lados da mesma moeda, não é um acaso que a médica obstetra perguntada se queria ter filhos respondeu: "Nunca quis ter filho e agora ainda menos!". De fato: ela não quer passar pelo que suas pacientes passam em suas mãos.

Porque nesse modelo há só dois lados: o do opressor e o do oprimido. Quem está por cima e quem está por baixo. O esperto e o ludibriado. Quem tem poder e quem é impotente. De qual lado você vai quer ficar? No do opressor, claro! Ainda por cima ganha-se um bom dinheiro! [E a humanização o quanto conseguiu ser alternativa a este modelo?]

Nessa alienação feminina e social passa despercebido a ambos os lados o sofrimento do outro: a mãe não atina para o sofrimento de seu bebê e a médica não se dá conta do sofrimento que causa. E às duas estão assim alienadas de sua própria capacidade se sentir e de ser empáticas. Alienadas de si.

Essa é a sociedade moderna na qual vivemos.

A antropóloga Robbie Davis-Floyd explicou o parto como rito de passagem da mulher para a maternidade DENTRO DO SISTEMA, rito de passagem imposto sobre a mulher. Todos os procedimentos têm uma segunda mensagem além daquela "técnica" (médica): a de colocar a mulher em seu devido lugar - que não é o lugar decisório. Seu corpo e o de seu bebê são do sistema e assim continuarão sendo... Continuará no futuro quando a mulher se moldará aos estereótipos femininos (no corpo e na mente - inclusive quando se sente f*ona) que o sistema lhe impõe e aos estereótipos educacionais que a escola irá impor sobre seu filho. Escola, mídia, ambiente social...

Então o ato de rebeldia da mulher que diz: "Não, este filho é meu. Eu sou o que ele precisa", para ser dito hoje precisa de uma mulher super empoderada. Não da boca pra fora, que esbraveja mas que esteja conectada tão profundamente consigo mesma ao ponto de vencer a sedução diabólica dentro da cabeça dela que sussurra repetidamente: você não sabe, você não é capaz, quem é você, vai por em risco seu filho, você é uma irresponsável, tem certeza do que quer...?

A humanização do parto tem essa vocação: a de revolucionar radicalmente esta realidade, mas não se pode fazer humanização do parto sem humanizar os sujeitos que atuam: mulheres e profissionais. 

E, a propósito, moçuolas da pesada, não se faz empoderamento da mulher aos berros, com slogans e palavras de ordem inclusive impostas sobres gestantes atendidas "humanizadamente". Este é o mesmo modelo anterior - bijuteria barata. 

Empoderamento verdadeiro vem do trabalho INTERIOR; sim, não se pode ficar no mental e no transe, mas deve-se ter a coragem de exercer aquele ato humilde do dobrar-se sobre si própria (e não simplesmente sobre o outro/a outra) e reconhecer em si própria (antes de simplesmente no outro/no outra) as origens da opressão (tão fácil de se exercitar mesmo nos meios humanizados) que prendem a um modelo duro de morrer e impedem aquela empatia por nós mesmas e pelos outros que a humanização prega.

Contato: atnhumanize@gmail.com

19 de jul de 2015

PERMITIR-SE SER MÃE


Acredito que uns dos maiores choques na vida de uma mulher no pós-parto seja a percepção de que "aquilo tudo" é maior do que ela pensava. O que está em jogo, porém, não é somente a questão prática e material, ou seja o trabalho braçal que um recém-nascido dá. Estar 24 horas por dia disponível para outra criatura que precisamos aprender a decifrar é um desafio grande, mas a raíz da dificuldade está em algo mais profundo que nem sempre vem à tona: a autorização a ser mãe.


Não vou dizer o que é ser mãe. O que quer que isso seja, certamente é algo grande, intenso e profundo. A questão está em permitir que essa "coisa" que se chama "maternidade" penetre e remodele nossa vida. Se trata de aceitar o que der e vier, dizer sim à uma nova vida, completamente desconhecida. Até em função de descobrir o que é a maternidade para ela, toda mulher precisa fazer isso: deixar-se levar, entregar-se, consentir a ter sua vida transfigurada.

A autorização consiste em duas etapas:

1) Autorizar-se a mergulhar na experiência, porque somente assim poderá ser vivida inteiro, realizá-la com sucesso e ser uma mãe responsável e feliz.

2) Autorizar-se a pedir (e até mesmo a exigir) ajuda. Uma mulher com um recém-nascido necessita de ajuda, e ela precisa saber que tem o direito de pedi-la.

Tornar-se mãe é mudar o foco e as prioridades. Há mulheres que não se acham no direito de dedicar o tempo e as energias necessárias a viver em plenitude a experiência da maternidade. Há outras que se sentem eternamente em culpa por "incomodar" os outros e não conseguem pedir ajuda. Há enfim aquelas que se sentem cobradas pela sociedade e pela sua própria mentalidade antiga (pré-gestação) a manter atividades profissionais e sociais. Enfim, há aquelas mulheres que não se sentem à altura de serem responsáveis pelo filho e acham que não vão dar conta.

Para todas elas a resposta é a uma só e a mesma: sem ser atingida em cheio pela maternidade você não vai dar certo de verdade. Não tem como aprender a nadar quando permanecemos agarradas à primeira rocha ou tronco do rio. Vale a pena se jogar no rio e descobrir como é o mar.


Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

13 de jul de 2015

AUTO-ESTIMA FEMININA E AMAMENTAÇÃO


O leite materno não desce somente porque existe uma fisiologia que o produz, mas é liberado ou bloqueado pela psique da mãe que tem um papel tão importante quando o físico. O caso abaixo é um exemplo de como a auto-estima da mulher influencia a amamentação.

E.A.S. tem 27 anos, é casada, trabalha como balconista. Engravidou após alguns meses de tentativas. Ao receber a notícia do exame positivo, mãe e pai ficaram muito felizes. O casal realizou curso de gestantes fornecido pela Cooperativa Médica da cidade. Nota-se que a participação do pai foi integral no curso. Ele fazia questão de estar presente com sua esposa.

Davi nasceu de parto normal. A mãe não acredita como isso aconteceu... Cita que nunca quis ter um parto desse tipo, mas aconteceu... Sentiu dores a noite toda, entretanto, achou que fossem  "gases". Ligou para o obstétra pela manhã... foi avaliada e rapidamente encaminhada à sala de partos, com 9 cm de dilatação.

E.A.S. conta que foi muito dolorosa a expulsão de Davi, mas se sente muito orgulhosa por ter conseguido.

Ainda no hospital, logo após o parto, Davi mamou ao seio.  A mãe sentiu medo e insegurança. Na madrugada, teve dificuldade para amamentar, mesmo sendo auxiliada pela enfermagem. Foi oferecido ao recém-nascido leite artificial.

No dia seguinte, o pediatra avaliou o bebê e lhe deu alta hospitalar. Orientou  a mãe sobre vacinas, teste do pezinho, retorno ao consultório, forneceu-lhe uma receita de desobstruidor nasal e... leite NAN.

E.A.S. conta que gosta muito do pediatra que escolheu para seu filho, e que ele havia sido o seu pediatra! Foi observada a estreita relação de confiança.

Recebi um telefonema na quinta-feira a noite (era um pouco tarde, eu já estava deitada). Era a avó de Davi, mãe da puérpera. Muito preocupada pediu para que eu ligasse para sua filha, pois ela estava com muitas duvidas. No dia seguinte fui visitá-la em sua residência.

Casa muito pobre, em uma vila distante. Estavam lá a avó que fez o contato, o pai do bebê, a mãe e dois cachorros. Davi estava dormindo com o pai, na cama do casal. Conversei bastante com E.A.S. e senti que ela estava amedrontada... tinha duvidas sobre cuidados básicos e estava oferecendo ao seu pequeno filho leite "Nestogeno" por ser mais barato do que o prescrito pelo médico.

Suas mamas estavam gigantescas... e com muito leite!!! Entretanto, ela não o tinha fornecido para Davi, alegando que o mesmo não consegue pegar.
Demos banho no pequeno, e começamos a empreitada para dar-lhe de mamar. A mãe demonstrava pouca paciência... e a avó ficava, atrás de uma porta, fazendo sinal para que eu não deixasse ela desisitir. Davi pegou o seio. Mostrei à mãe que ele estava sugando. Reforcei a importância do leite materno e da sucção para continuar produzindo leite. O pai em todo o tempo da visita continuou no quarto, dormindo! Retornei ao meu trabalho. Mais tarde, entrei em contato por telefone, tudo estava bem.[1]

Há aqui relação entre o parto e a amamentação, não no sentido material mas símbolico. A mãe não se sentia preparada para o parto normal, apesar do curso para gestantes na Cooperativa Médica da cidade. Nesses cursos são passadas informações genéricas sobre alguns aspectos do parto e da maternidade focando nos cuidados materiais e nas técnicas, conforme a cultura materialista e superficial na qual vivemos. Pouca ou nenhuma atenção é dada à capacitação da mulher, ou melhor, ao despertar de sua capacidade.

A insegurança que E.A.S. tinha com relação parto se transferiu para a amamentação. O parto ocorreu “sem querer”. O fato dela ter tido um parto normal e de sentir-se orgulhosa por ter conseguido não significa que ela o tenha absorvido em sua personalidade. Ela continua se sentindo insegura e fraca. Faltou, após o parto, a elaboração da experiência. Não basta o corpo fazer, realizar o parto. A consciência deve, sem seguida, apropriar-se da experiência, fazê-la própria, assumindo-a conscientemente e com ela as capacidades envolvidas.

A essa falta de consciência se soma o estranhamento do fenômeno da amamentação, o qual está ligado a dois fatores. Em primeiro lugar, existe uma natural falta de familiaridade com um ser tão pequeno e de aparência frágil que não conhecemos, que depende inteiramente de nós e que “não fala a nossa língua”. É aquela sensação de insegurança no manipular um serzinho desses e de certa forma “não saber o que fazer com ele”. Isso é basicamente devido à falta de hábito. Qualquer mulher após ter passado por um bebê (próprio ou alheio) desenvolve reações apropriadas.

Em segundo lugar, está espreitando aqui o sentimento de responsabilidade da mãe para com a vida do bebê, que pode facilmente se refletir no ato de amamentar. Trocar fraldas, lavar, vestir são gestos materiais; se aprendem. Amamentar é uma dimensão física-e-psíquica. Ser nutriz é muito mais do que ser a babá do próprio filho. Ser nutriz pressupõe que é “nosso conteúdo” que nutre e mantém em vida o bebê. E por conteúdo entendo: o alimento material (leite) e aquele simbólico (amor, valores, estilo de vida, educação, sentido da vida).

No aspecto simbólico encapsulado no gesto físico de amamentar pulsa, como um coração, a seguinte questão: serei uma boa mãe? Sou capaz de ser mãe? O que tenho a oferecer para um filho? Aquilo que sou é suficiente para dar-lhe o que ele precisa para seu desenvolvimento?

Se essas perguntas parecerem profundas demais, quero lembrar que não é absolutamente necessário que tenhamos consciência delas para que existam. É justamente por isso que há mais de cem anos surgiu o conceito de inconsciente: há coisas que a consciência desconhece e que entretanto existem e influenciam nossas vidas.

É interessante, nesse relato, que o pai permanece o tempo todo dormindo. Podemos nos perguntar por quê, já que ele participou da gestação e estava muito feliz com a vinda do filho. De fato, ele e o filho dormem juntos...

Ser pais participantes da gestação e do parto é estar envolvidos na paternidade, o que é coisa diferente do estar envolvido na relação com a mãe do próprio filho. Uma coisa é apoiar a gestação, outra é apoiar a mulher que a carrega! Esse homem, como muitos, está voltado para o filho. Ele vai ter seu filho, sua progênie. As mulheres continuam, com frequência, sem poder contar com a parceria masculina. Cada um tem um filho, separadamente, mesmo sendo o mesmo bebê.

Ao vazio do apoio moral do marido, se soma, à sabotagem do pediatra que, ao receitar o leite artificial, está diretamente desqualificando o leite da mulher. Sobra somente a mãe da puérpera, a qual busca ajuda...
Concluímos que só nos resta a solidariedade feminina, que é a chave que precisamos para empoderar as mulheres, de modo que elas possam ser mães ativas e conscientes de uma nova geração humana, mais saudável no corpo e na mente


[1] Relato de caso de Tatiana Stanzani Acquarone, enfemeira e facilitadora de amamentação.


Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

15 de jun de 2015

PARTO HUMANIZADO: O QUE É


Vamos começar pelo que o “Parto Humanizado” não é. Ele não é sinônimo de parto natural, na água ou domiciliar. Parto humanizado não significa um “tipo de parto”, ou seja, um modo de parir, uma posição, um local ou uma condição. Parto humanizado é uma abordagem ao parto, uma forma de encará-lo, vivê-lo, concebê-lo e conduzi-lo.

Protanto, qualquer parto pode ser humanizado. Então, pergutam, por que se vê parto humanizado associado geralmente a parto natural ou domiciliar?

Porque o parto humanizado nasceu para resgatar o protagonismo feminino que está associado à fisiologia do parto, ambos vinculados ao empoderamento feminino. Compreendendo cada um desses conceitos ficará claro porque parto humanizado geralmente se identifica com parto natural ou domiciliar.

Com “protagonismo feminino” se quer dizer que a mulher tem um lugar de destaque, que o parto é dela e ela tem uma atitude e postura ativas durante o mesmo. Isso implica uma mulher informada sobre o mecanismo de parto e à vontade no ambiente e com as pessoas (profissionais e não) para vivenciar o parto de forma livre, espontânea – ou seja ativa. Ela não é passiva, submissa, amedrontada, acuada. Ela atua em seu próprio parto.

Com “fisiologia do parto” se entende o mecanismo natural do parto, como ele funciona “ao estado natural, puro” sem intervenções externas (ou internas). Estamos aqui falando do parto animal, mamífero. Este parto segue um certo percurso e chega ao esperado desfecho de forma totalmente natural. Respeitando-o a experiência de parto é muito mais suave e menos dolorida do que quando a fisiologia do parto é desrespeitada ou atravancada por várias interferências externas (médicas e sociais) ou internas (medos).

Com “empoderamento feminino” nos referimos ao efeito que uma condição de preparação ao parto e de parto produz na mulher: um estado interior de poder, força, autoestima, confiança e autoconfiança. Não se trata aqui de poder mental, do ego, do “eu quero”. Trata-se de uma condição interior de poder aliada à confiança em si e na vida. Entrega e alegria, força e doação, vontade e fé.

Quando se quer levar em consideração esses conceitos, eis que a modalidade de parto em que a mulher é mais protagonista e em que a fisiologia é mais livre de atuar é necessariamente a o parto natural e domiciliar. Daí estar o parto humanizado tão associado a parto natural e domiciliar.

Entretanto, parto humanizado não se identifica com essas formas de parto, mas, como dissemos acima, com a abordagem ao parto. Pois, posto que nossa realidade humana não funciona segundo o ideal, temos “n” situações em que o parto completamente natural (sem intervenção alguma) e domiciliar não são possíveis ou desejáveis. Mesmo assim, os critérios de protagonismo feminino, fisiologia do parto e empoderamento feminino podem e devem ser levados em consideração.



Graças ao movimento pela humanização do parto descobre-se sempre mais o quanto o parto é um evento de altíssimo significado psicológico e espiritual para a mulher, seu filho e o casal. É com esta perspectiva em mente que é preciso pensar o parto para conduzi-lo da forma mais respeitosa possível, seja em termos de sua fisiologia como de sua humanidade


Daí a importância de fazer uma boa preparação ao parto, que deve incluir seja informações sobre como funciona o parto como também, e sobretudo, o preparo psico-emocional e espiritual para a chegada do bebê e a maior mudança de nossas vidas. 

10 de mai de 2015

DOULANDO EM SITUAÇÃO DIFÍCIL: PARTURIENTE DESCONECTADA E FAMILIARES DEMAIS POR PERTO

Este relato é surpreendente. Aline demonstrou uma capacidade incrível de administrar uma situação difícil, ainda mais por se tratar de sua primeira experiência de doulagem! Ela teve paciência, bom senso e perseverança. Foi capaz de liderar um trabalho de parto desconectado e invadido por terceiros sem arrogância e sem prepotência, mas com flexibilidade, positividade e verdadeiro talento pela doulagem. Amor à mulher e maturidade emocional para segurar uma onda difícil. Parabéns, Aline! Nossa mais nova doula formada pela ONG Amigas do Parto via Instituto Ser e Saber Consciente.

Relato de parto de Aline dos Santos Rossi (Cuiabá - MT) – primeira experiência de doulagem realizada enquanto se formava doula parto em nossos cursos.

“Meu primeiro encontro foi acompanhando outras duas doulas mais experientes: Carol e Tuanny. A gestante já estava em pódromos, mas fomos chamadas porque existia a possibilidade de

7 de mai de 2015

DOULAGEM DE SUCESSO

Por Maria Zilda Simoni Torres
Assistente de enfermagem e doula
2015


Tivemos nosso primeiro contato, casal e doula. Ouvi atentamente todas as dúvidas e medos do casal, principalmente da gestante. Apresentei informações concretas e fomos quebrando paradigmas no restante de nossas visitas periódicas.

A gestante me procurou por ser seu primeiro filho, primípara, e não querer em hipótese algum uma cesárea. Ela dizia