11 de jan de 2016

CONSTRUINDO A RELAÇÃO MÃE-BEBÊ

Apesar de acharmos que o amor materno não nasce porque já existe, a chegada do bebê vai sacudir inúmeras crenças. É a mesma situação de quando, meninas, brincávamos de bonecas e imaginávamos situações românticas. Ao encontrar o parceiro, a realidade mostra como são complexas as relações e como precisam de tempo para se estabilizarem. Relacionar-se é um processo, não um estado. O mesmo vale com o bebê, com a dificuldade de que ele não fala nossa linguagem e aciona mecanismos profundos, emocionais e sentimentais, com os quais precisamos aprender a lidar. Em quantas situações podemos ficar assustadas sem saber o que está acontecendo? Imaginamos então desastres e perigosos muitas vezes infundados. Somos empurradas a tomar atitudes quando nem sempre temos clareza sobre o que é melhor fazer. Precisamos decidir rapidamente e agir, ou deixar de fazer e confiar na natureza.


O vínculo mãe-bebê começa desde a relação intra-uterina, mas se desenvolve de verdade durante mamadas, trocas de fraldas, decisões responsáveis, toques e olhares; mães e filhos vão se descobrindo, se  conhecendo ao longo das horas, dias, meses e anos em que convivem. Parece então que o amor cresce, se fortifica, amadurece. O amor precisa de tempo para se tornar uma realidade sólida, verdadeiramente concreta. Mesmo para as melhores e mais resolvidas das mães o amor pede um tempo para se tornar uma realidade efetiva.


Uma das primeiras formas de estabelecer o vínculo com o bebê é a amamentação, que é alimentação e relação, o que nesse início de vida sintetiza o que é “amor”. Outra forma é o toque: após o primeiro mês de vida se pode fazer Shantala e já no primeiro mês pode-se usar o Toque da Borboleta, suave e calmante.


Conversar e contar histórias, o que se faz, o que se pensa, o que se sente, cantar para ele, mesmo que o bebê não entenda racionalmente, é um bom começo de relação. O tom da voz, a qualidade da energia emanada pela mãe faz a diferença. Quando contamos para alguém de forma honesta e tranqüila o que está acontecendo, lhe transmitimos também uma energia confortadora e acolhedora. É esta que o bebê recebe. Não é necessário sempre distraí-lo fazendo brincadeiras e parodiando nossa voz e feição como se fôssemos palhacinhos de circo! Os bebês têm uma profunda seriedade para com a vida. O que eles estão vivendo é primordial, essencial e urgente. Importante. São graciosos mas seriamente reais.


O vínculo com o bebê refletirá também quem a mãe é. É importante lembrar que uma relação é sempre algo de mão dupla. Cada um é um e os bebês já são indivíduos singulares e únicos desde o nascimento, aliás, desde o útero. Contudo seu crescimento e modo de ser espelhará também a realidade da mãe, quem ela é, que tipo de pessoa e mulher ela é, suas crenças, seu estilo de vida e seus desejos (os ditos e assumidos e os escondidos). Para uma boa qualidade do vínculo mãe-bebê é preciso que o primeiro sujeito desse vínculo – a mãe – cuide de si mesma, detecte suas necessidades e procure aquilo que lhe faz bem e a possa ajudar. Isso é ser uma “boa mãe”.



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. 
www.adrianatanesenogueira.org

23 de dez de 2015

SE SEU BEBÊ NÃO DORMIR...

A imagem da infância feliz e risonha é desmentida por tantos bebês nos dias de hoje chorando, mostrando-se perturbados, confusos, e tendo “birras”. Antes de diagnosticar seu filho com algum distúrbio de personalidade, vamos conferir essas possíveis causas:

- O bebê está sendo amamentado no peito? Se estiver tomando mamadeira, pode ser que ele sinta falta do seu peito, ou seja, sinta falta de você por inteiro. Amamentar no peito não é só nutrimento, é intimidade, doação de seu tempoe e de você através de seu “sangue branco” (como o leite era chamado antigamente) e de sua presença completa.

- Como o bebê transcorre seu dia? Com quem? Que tipo de pessoa é sua cuidadora? Quando e como está com você, mãe? [“Ah, mas meu bebê gosta muito da babá...” Certo... e chora quando você está em casa, não quer dormir... Por que será? Porque, mãe, ele quer ficar com você. Estar bem com a babá não quer dizer que ele não sinta a sua falta. Ele está “aguentando” até você chegar; nenhuma babá substitui a mãe]. É importante observar o tipo de pessoa e de “energia” dessa pessoa que está com seu bebê. Bebês são esponjas.

- O bebê tem com cólicas? Tente a massagem Shantala ou o Toque Borboleta. Shantala, em particular, deveria ser um aprendizado obrigatório de toda grávida. As massagens deve ser realizadas em local tranquilo e arejado, você estando calma: deve ser prazeroso para mãe e bebê. Cólicas também sinalizam tensões na relação com a mãe ou da mãe consigo mesma, dificuldade de processar a maternidade ou de harmonizar aspectos contraditórios de sua vida.

- Você, mãe, está bem? Seu bebê sente sua tensão e aquela que está no ar. Ele absorve como papel toalha o ambiente emocional no qual está. Logo... Dê uma olhada honesta em sua casa interior e naquela externa e veja se está em harmonia.

- Por acaso você, mãe, está assustada? Se você estiver, imagine seu bebê como estará se sentindo já que depende inteiramente de você. Se resolva e verá que o bebê também se acalmará. Uma mãe pode estar assustada pelo simples fato de ser mãe, de ter que cuidar de um bebê, de estar sozinha, de não saber como vai fazer com o trabalho, e etc.

- O quarto do bebê é tranquilo e silencioso? A casa é barulhenta? Lembre-se que ele veio do útero escuro e silencioso e que nossos olhos descansam somente no escuro. Os bebês possuem uma sensibilidade muito mais aguçada da dos adultos, precisam de silêncio e paz. Ah, mas meu bebê de dois meses dorme mesmo no shopping ou durante o concerto de Madonna... Sim, ele agora dorme, espere um tempo para ver os efeitos colaterais no futuro. Acostumar um bebê ao barulho e ao caos é aturdi-lo, anestesiando sua sensibilidade delicada e prejudicando seus instintos de autoproteção.

- O bebê saiu durante o dia? Passeou? É importante sair de casa uma vez ao dia, relaxa e promove uma boa dormida. Bebês também precisam de ar fresco, sentir o vento, ouvir os passarinhos, perceber o mundo ao ar livre.

- Você está feliz? Uma mãe feliz faz um bebê feliz. É simples contágio. Mães de bem consigo mesmas, em sintonia com suas necessidades, tendem a ter bebês mais pacíficos.


Adriana Tanese Nogueira

Terapeuta transpessoal, Life Coach, Psicanalista, Educadora Perinatal, Autora. Fundadora da ONG Amigas do Parto. Boca Raton, +1561-3055321. Atendimento presencial e via Skype adultos, crianças, adolescentes e casais.  www.adrianatanesenogueira.org

19 de out de 2015

PERMITIR-SE SER MÃE


Acredito que uns dos maiores choques na vida de uma mulher no pós-parto seja a percepção de que "aquilo tudo" é maior do que ela pensava. O que está em jogo não é somente a questão prática e material, ou seja o trabalho físico que um recém-nascido dá. Estar 24 horas por dia disponível para outra criatura que precisamos aprender a decifrar é um desafio grande, mas a raíz da dificuldade está em algo mais profundo que nem sempre vem à tona: a autorização a ser mãe.

Não vou dizer o que é ser mãe. O que quer que isso seja, certamente é algo grande, intenso e profundo. A questão está em permitir que essa "coisa" que se chama "maternidade" penetre e remodele nossa vida. Se trata de aceitar o que der e vier, dizer sim à uma nova vida, completamente desconhecida: a vida do bebê que chegou em nossa casa e a nossa vida com ele que irá mudar completamente e para sempre. Em função de descobrir o que é a maternidade, toda mulher precisa fazer isso: deixar-se levar, entregar-se, consentir a ter sua vida transfigurada.

A autorização consiste em duas etapas:
1) Autorizar-se a mergulhar na experiência, porque somente assim poderá ser vivida por inteiro; realizá-la com sucesso e ser uma mãe responsável e feliz. Só podemos ser responsáveis e felizes quando abraçamos a experiência não quando resistimos a ela.

2) Autorizar-se a pedir (e até mesmo a exigir) ajuda. Uma mulher com um recém-nascido necessita de ajuda, e ela precisa saber que tem o direito de pedi-la. Por isso é preciso acionar maridos, familiares, amigos. Maternidade não é ou não deveria ser uma experiência de isolamento. Hoje em dia isso acontece por conta do tipo de sociedade na qual vivemos.

Tornar-se mãe é mudar o foco e as prioridades. Há mulheres que não se acham no direito de dedicar o tempo e as energias necessárias a viver em plenitude a experiência da maternidade. Há outras que se sentem eternamente em culpa por "incomodar" os outros e não conseguem pedir ajuda. Há também aquelas que se sentem cobradas pela sociedade e pela sua própria mentalidade antiga (pré-gestação) a manter atividades profissionais e sociais no mesmo rítmo de antes. Enfim, há aquelas mulheres que não se sentem à altura de serem responsáveis pelo filho e acham que não vão dar conta.

Para todas elas a resposta é a uma só e a mesma: sem ser atingida em cheio pela maternidade você não vai dar certo de verdade. Não tem como aprender a nadar quando permanecemos agarradas à primeira rocha ou tronco do rio. Vale a pena se jogar no rio e descobrir como é o mar. Vale a pena porque é o único jeito de sair do impasse e desenvolver seu jeito de ser mãe, dentro de suas condições que inclui renda mensal mas também coração.


Maternidade é um projeto, não uma condição pronta. Nós crescemos junto a nossos filhos. Sabemos que o desenvolvimento não pode ser parado, não o da criança nem o dos pais. Desenvolvilmento que é físico mas sobretudo cognitivo, emocional, espiritual e efim: existencial. O resultado desse engajamento será sempre positivo, recompensador e duradouro para o bem seu e das gerações a seguir.


Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. 
www.adrianatanesenogueira.org

30 de set de 2015

POR QUE NÃO ENGRAVIDO?

Adriana Tanese Nogueira
Psicanalista

Engravidar parece tão simples, não? Tantas gravidezes acontecem todos os dias, a maioria delas, digamo-lo, não planejadas e sequer desejadas. Nascem crianças a toda hora no mundo, sobretudo nos países mais pobres onde ter filho deveria ser um luxo para poucos... As crianças parecem brotar como grama no campo, sem pedir licença e sem se fazer esperar.

Mas seu filho não vem. Seu tão desejado filho não chega. Por que? O que você tem de errado? Ou o seu marido?

Você fez todos os exames médicos e nada de descobrir a razão desse mistério: parece que você está proibida de ter filhos, há alguma maldição pesando em você, ou talvez não mereça ou... Mil e uma razão que levam a insistir ou se desesperar e insistir ainda com mais veemência para ver se na marra se arranca um anjinho do céu e o se faz aterizar em nosso ventre.

Minha proposta é outra. Vamos fazer de conta que somos um ser único, Uno, feito de matéria e espírito, corpo e alma? Vamos fazer de conta que nada na gente é isolado mas tudo interconectado? Vamos imaginar que não há defeitos nem mistérios mas somente nossa ignorância e que esta é, digamo-lo!, bem grande?

Se entrarmos nessa perspectiva que haveria de se chamar holística, não podemos encarar a concepção que não acontece como um mero problema físico, mas como o resultado, o sintoma, de um conjunto de fatores. E aqui entra a nossa gigantesca ignorância a respeito de nós mesmos, porque a primeira pergunta é: mas de quais fatores?? Eu quero um filho! Se eu quero, e nem eu nem meu companheiro estamos impossibilitados a conceber, então tenho que engravidar! Este é o raciocínio básico. Simplório também. Comum. Mais fácil. Mas seu corpo a está contradizendo, não? Seu corpo está zoando de sua vontade e de seus raciocínios. Seu corpo desobedece.
Ou será que é mais de seu corpo? O que estará atrás desse corpo rebelde? O que este corpo rebelde estará representando, atuando, materializando? Quais obstáculos? Quais desafios? Quais questões a serem resolvidas?

Cada mulher e cada casal têm sua história, seus caminhos e descaminhos internos, profundos, únicos. Cada um carrega como herança uma história de família e de alma que contém muito mais do que se pode imaginar. É preciso procurar nas histórias por trás da conversa materialista-mecanicista da fecundação. É preciso procurar em histórias além daquela de um óvulo arredio e de um espermatozóide fraco o porquê essas duas células aqui não se encontram. Que códigos estarão seguindo? Por quais conversa e entendimentos estarão sendo guiados? Quais vontades estarão ouvindo?
É por trás da camada física que é preciso buscar as respostas. Mas este é um caminho de alguma forma solitário, profundo, sobretudo desafiador.

Há muitos e muitos pais que querem e têm filhos mas não estão na verdade abertos para o terremoto que maternidade e paternidade representam para suas vidas anteriores. Querem e têm filhos mas não querem que “incomodem” demais, que “atrapalhem” seus programas. Da mesma forma, há tentantes, mulheres e homens que não estão dispostos a vasculhar nas profundezas por respostas que se encaixem em sua história de vida e psicológica. Preferem tentar usando os métodos tradicionais que não tocam o emocional, que não perturbam a visão das coisas e a identidade já estabelecida.


A cada um seu caminho, a cada uma sua escolha. A liberdade existe para isso: para experimentarmos possibilidades diferentes. Mas, se após muitas tentantivas a gravidez não aparecer e o desânimo bater, lembre-se que não somos só feitos de carne. Aliás, o corpo físico é somente um espelho de outras dimensões que geralmente são mais fortes do que esse corpo feito de carne e sobretudo mais forte do que a vontade do ego. Abra-se ao auto-conhecimento e enverede pelo novo caminho. Quem sabe?

8 de set de 2015

NÃO DEIXE SEU BEBÊ CHORANDO - CHORAR NÃO É MANHA

Adriana Tanese Nogueira

Por que os bebês choram? Eles choram quando têm um malestar: sono, medo, fome, frio, calor… Não só: choram também pela falta de contato físico com sua mãe ou outras pessoas do seu entorno afetivo.

O choro é o único mecanismo que os lactentes têm para comunicar seu. Nas suas expectativas – filogenéticas, ou seja no seu DNA - não está previsto que este choro seja desconsiderado. E isso pela simples razão que não há outro meio de avisar sobre o malestar que sentem e são pequenos demais para resolvê-lo por conta própria.

O corpo do recém nascido está desenhado para ter o seio materno tanto quanto necessita, para sobreviver e para sentir-se bem: alimento, calor, apego. O bebê criado no corpo a corpo com a mãe desconhece a sensação de necessidade, de fome, de frio, de solidão, e não chora “normalmente”. Como afirma Jean Liedloff, na sua obra The Continuum Concept, o lugar do bebê não é no berço, na cama, e nem no bebê-conforto, senão no colo materno.

A verdade é óbvia, simples e evidente.

Quando chora e não é atendido, o bebê chora com mais e mais desespero porque está sofrendo. Há psicólogos que asseguram que quando se deixa de atender o choro de um bebê depois de três minutos, algo profundo se quebra na integridade dele, assim como na confiança em seu entorno. Infelizmente, há pais e que acreditam que “é normal que os bebês chorem”, e que “há que deixá-los chorar para que se acostumem”. A verdade é estão insensibilizados para que seu pranto não nos afete. Mas, se ficarmos perto deles e sentirmos se;u desespero seremos incapazes de consentir com a sua dor. Não estamos de todo deshumanizados.

Vários pesquisadores americanos e canadenses realizaram diferentes investigações de grande importância em relação a etapa primal da vida humana e demonstraram que o contato pele a pele produz moduladores químicos necessários para a formação de neurônios e do sistema imunológico. Isso significa que a carência de afeto corporal transtorna o desenvolvimento normal das criaturas humanas.

No Ocidente se criou, nos últimos 50 anos, uma cultura (impulsionada pelas multinacionais) que deshumaniza o cuidado: ao substituir a pele pelo plástico e o leite materno por um leite artificial se separa mais e mais a criatura de sua mãe. Simultaneamente, se medicaliza cada vez mais a maternidade: as mulheres adormecem a sensibilidade e o contato com seus corpos, e se perde uma parte de sua sexualidade: o prazer da gestação, do parto e da extero-gestação – o colo e a amamentação. Paralelamente, as mulheres decidiram pelo mundo do trabalho feito pelos homens e para os homens, e que, portanto, exclui a maternidade.

A curto prazo, parece que o modelo de criação robotizado não é daninho, que as crianças sobreviverão. Porém, pesquisadores como Dr. Michel Odent (primal-health.org) têm demonstrado a relação direta entre diferentes aspectos desta robotização e doenças na idade adulta. Por outro lado, a violência crescente em todos os âmbitos, tanto públicos como privados (ver Alice Miller (1980) e James W. Prescott (1975)) também procede do mau trato e da falta de prazer corporal na primeira etapa da vida humana. Há estudos que demonstram a correlação entre dependência das drogas e transtornos mentais com agressões e abandonos sofridos na etapa primal.

Deveríamos sentir um profundo respeito e reconhecimento pelo choro dos bebês, e pensar humildemente que não choram porque são “manhosos”. Ao contrário, eles estão nos ensinando a seremos melhores mães e pais.


Quando um recém nascido aprende em um berçario que é inútil gritar, está sofrendo sua primeira experiência de submissão e abandono. (Michel Odent)

Texto inspirado no artigo de Josie Zecchinelli e do site Aleitamento.com

4 de set de 2015

A MÃE APÓS A CHEGADA DO BEBÊ

Por Verena de Magalhães Ballalai Alves de Almeida

A chegada do bebê é uma festa! Todos querem conhecer, muitos querem pegar, carregar, beijar... É importante avisar aos amigos e familiares se deseja receber visitas na maternidade e quando deseja começar a receber visitas em casa. E falar as visitas quanto as suas regras e rotinas nos cuidados como bebê.
Particularmente, são desaconselhadas as vistas na maternidade. A mãe está recebendo cuidados da equipe da maternidade a todo instante, ainda está em fase de adaptação à nova realidade, aprendendo a amamentar e cuidar do bebê. E pelo menos nos 2 primeiros meses em casa, ainda está se adaptando à nova rotina: tanto a mãe quanto o bebê! É uma fase em que a mãe ainda está aprendendo a decodificar cada chorinho, ainda está estabelecendo novos hábitos na casa, está conhecendo seu filho e se conhecendo como mãe. A rotina estabelecida para o bebê não deverá ser quebrada pelos visitantes, quando as visitas já estejam liberadas. Se o bebê estiver dormindo por exemplo, não é aconselhado acordá-lo para que seja visto/admirado. O sono do bebê deve ser respeitado.
Quando nos vemos grávidas, somos bombardeadas pela descoberta de tantas coisas lindas e muitas vezes ditas como imprescindíveis para a chegada do bebê. Mas será que eu realmente preciso do mordedor da moda caríssimo e com a mesma função de qualquer mordedor? Será que aquele carrinho da minha amiga ou daquela artista que eu vi na revista realmente é adequado pra mim? Quantas roupas o bebê realmente precisa ter? Realmente preciso comprar uma redinha de proteção para dar frutas ao bebê e não permitir que ele entre em contato direto com o alimento no tamanho e texturas adequados para a idade após os 6 meses da amamentação exclusiva? Absorvente para o seio é realmente o mais indicado ou existe o risco de aparecimento de fungo e a concha seja mais adequada? Mas a concha flexível ou rígida? Onde vou amamentar meu bebê com conforto? Enfim... São tantas coisas para pensar. Tantos itens supérfulos e tantos realmente imprescindíveis que na hora de montar a lista do enxoval, é necessário ter cautela, refletir sobre o que é realmente importante e necessário e neste momento, uma ajuda especializada é muito bem vinda.
É importante que logo após o parto, a parturiente possa falar sobre sua experiência de parto e elaborá-la.

Muitas vezes tão temido e ao mesmo tempo tão desejado, o retorno ao trabalho é um assunto delicado. Temido pois será a primeira vez desde o nascimento que a mãe irá se separar do bebê por um período maior e necessitará que outra pessoa cuide dele enquanto estiver no trabalho. E desejado, pois muitas vezes, a mãe mesmo tendo prazer em estar em casa cuidando de seu bebê, percebe em alguns momentos a falta dos seus outros papéis, como o laboral por exemplo. É comum a mãe repensar seu ritmo e satisfação no trabalho, porém sem abandonar a atividade laboral e sim a busca de uma nova atividade que lhe proporcione satisfação e condições de poder passar mais tempo com seu filho. A mãe precisa organizar e definir quem ficará com seu bebê enquanto ela estiver no trabalho, quais as vantagens e desvantagens de cada opção (familiar, babá, creche), se ainda estiver amamentando, como realizará a ordenha e armazenará o leite materno etc. 


Verena de Magalhães Ballalai Alves de Almeida é terapeuta educacional e educadora perinatal(pela ONG Amigas do Parto/Instituto Ser e Saber Conscienteem Salvador-BAballalai@gmail.com

PARTO NATURAL, PARTO NORMAL E PARTO HUMANIZADO: ESCLARECENDO AS IDEIAS

Por Verena de Magalhães Ballalai Alves de Almeida

Parto natural: parto por via vaginal,onde as intervenções médicas são realizadas somente quando há necessidade, o que ocorre pouco.

Parto normal: parto por via vaginal, com a presença de intervenções médicas, muitas vezes desnecessárias.


Parto humanizadoO “parto humanizado” não é um tipo de parto. O nascimento do bebê pode ser por via vaginal (parto “normal” ou natural) ou cirúrgico (cesáreo). No parto, a mulher é ativa, participa do processo. O parto humanizado é na verdade um modo de entender, abordar e conduzir o parto. No parto humanizado a fisiologia do parto é respeitada, e as intervenções, inclusive a cesárea, só são realizadas quando realmente necessárias. O parto humanizado empodera a mulher e acolhe com sensibilidade o recém-nascido. Neste sentido, a humanização do parto é um processo de ampliação da consciência, pois coloca a mulher como protagonista, a mulher participa das decisões sobre seu corpo e seu parto. A mulher passa ter acesso a informações que até um tempo atrás eram negadas a ela e de posse dessas informações pode decidir junto com a equipe obstétrica quanto as condutas da sua gestação e parto.   


Verena de Magalhães Ballalai Alves de Almeida é terapeuta educacional e educadora perinatal(pela ONG Amigas do Parto/Instituto Ser e Saber Conscienteem Salvador-BAballalai@gmail.com

2 de set de 2015

DOULA: QUAL A FINALIDADE?

A doula é uma mulher que dá apoio. Apoia a mulher e apoia à parteira. Uma figura ambivalente faz um pouco de tudo e de fato não possui nenhuma especialização. A  doula faz a diferença justamente naqueles espaços obstétricos onde há falta de elemento humano. Sendo uma carta magna da mulher. Uma carta que uma mulher pode usar ou não, porque doulas não são indispensáveis. Doulas são úteis onde existe uma carência de respeito, confiança, carinho, informação na relação entre grávida e seu médico ou a grávida e o hospital em toda sua equipe de ilustres desconhecidos sem vulto e sem simpatia. 


Bruna Celia da Silva Lima, Educadora perinatal, Rio de Janeiro (RS) limabrucs@gmail.com. Formada ONG Amigas do Parto.

25 de ago de 2015

VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA E PEDIÁTRICA

Adriana Tanese Nogueira

A mulher quer um parto natural hospitalr. É assistida por uma médica que se diz humanizada e que trabalha com uma obstetriz (supostamente humanizada). A parturiente tem um trabalho de parto intenso, com muita dedicação, coragem, fé e amor. Marido e doula em sintonia. União dos três, conectados na mesma direção...

Mas a médica tem outros planos... A espertinha! E seus planos ganham a jogada, afinal ela é A Médica. Trabalho de parto, diz ela, não se faz em banheira "porque isso daqui não é spa", e ela também tem certeza que "você tem que me escutar porque Eu Sou Sua Médica!". Perturba que perturba, a Doutora consegue o que quer. Cesárea. Enqaunto isso, chega a pediatra irritada por "mais um parto vaginal" (e acrescentem aqui as xingações que ela omitiu de falar em voz alta). Aproveita da oportunidade e... se vinga sobre o bebê pelo que considera uma absurda escolha da mãe e contra a qual ela, pediatra, tem algum tipo de tabu mais forte do que uma crença religiosa. Assim, apesar de ter nascido sob os olhos de todos em boas condições, o bebê é declarado "nascido morto", com apgar 0. 

Protocolo neonatal em vigor. Sirenas apitando. Sua Senhoria A Pediatra Neonatologia sentenciou: bebê morto no primeiro minuto (não importa se 5 minutos depois foi para Apgar 10). A pobre criatura, ao invés de ser recepcionada pelos braços acolhedores de sua mãe - que não sabe ter sido ludibriada pela médica humanizada e está agora feliz por ver seu filho pela primeira vez - é encarada pelo ódio irracional da pediatra e encima dele despenca a enxurrada de intervenções desnecessárias, protocolares, inevitáveis... 72 horas sem comer, isolado do mundo e de sua mãe, manuseado, observado, examinado de cabo a rabo... E assim se recepciona um ser humano. 72 horas que devem lhe parecer longuíssimas pois são suas primeiras nessa vida. E está só. Os humanos que têm a sua volta não são amigos.

Por que as mães aceitam? Porque estão alienadas de quem são e logo de seu poder. No Call the Midwife, seriado americano que se pode assistir na Netflix, diante de uma situação parecida a puérpera responde: "Eu sou o que ele precisa. O bebê fica comigo." E seu marido lhe dá um beijo na testa. Estamos aqui numa época em que a mulher tinha o poder da maternidade assumido por elas e reconhecido socialmente. E ainda assim, aquele é um filme, uma reconstrução... Porém, podemos dizer que as mulheres, 150 anos atrás por serem sobretudo donas de casa e mães, exerciam um poder social que era oficialmente reconhecido por elas e por todos. Logo, elas tinham mais chances de serem respeitadas quando clamavam sobre verdades/necessidades relativas ao âmbito social de poder delas, a saber o universo femininao. Não existia a medicina intervencionista e tecnológica e as parteiras ainda detinham poder reconhecido.

Hoje estamos em outra época e com outras mulheres. Hoje as mulheres não se reconhecem detentoras de um conhecimento específico nesse âmbito. Ser um mulher bacana, f*a, é ser uma super profissional que ganha muito dinheiro. Hoje uma médica que se sente f*ona tem como cabeçalho de sua página no facebook não um símbolo de sua profissão, vocação, valores humanos, missão comunitária, mas um manequim representando uma boneca da Disney com pérolas (falsas, claro). A isso a medicina se reduziu: a bijuteria. De prática nobre virou espetáculo e exibição de egos (também falsos). 

Profissionais como estes estão em perfeita sintonia com a recém-parida que se vê retirado seu bebê por motivos incompreensíveis a ela mas que aceita. São dois lados da mesma moeda, não é um acaso que a médica obstetra perguntada se queria ter filhos respondeu: "Nunca quis ter filho e agora ainda menos!". De fato: ela não quer passar pelo que suas pacientes passam em suas mãos.

Porque nesse modelo há só dois lados: o do opressor e o do oprimido. Quem está por cima e quem está por baixo. O esperto e o ludibriado. Quem tem poder e quem é impotente. De qual lado você vai quer ficar? No do opressor, claro! Ainda por cima ganha-se um bom dinheiro! [E a humanização o quanto conseguiu ser alternativa a este modelo?]

Nessa alienação feminina e social passa despercebido a ambos os lados o sofrimento do outro: a mãe não atina para o sofrimento de seu bebê e a médica não se dá conta do sofrimento que causa. E às duas estão assim alienadas de sua própria capacidade se sentir e de ser empáticas. Alienadas de si.

Essa é a sociedade moderna na qual vivemos.

A antropóloga Robbie Davis-Floyd explicou o parto como rito de passagem da mulher para a maternidade DENTRO DO SISTEMA, rito de passagem imposto sobre a mulher. Todos os procedimentos têm uma segunda mensagem além daquela "técnica" (médica): a de colocar a mulher em seu devido lugar - que não é o lugar decisório. Seu corpo e o de seu bebê são do sistema e assim continuarão sendo... Continuará no futuro quando a mulher se moldará aos estereótipos femininos (no corpo e na mente - inclusive quando se sente f*ona) que o sistema lhe impõe e aos estereótipos educacionais que a escola irá impor sobre seu filho. Escola, mídia, ambiente social...

Então o ato de rebeldia da mulher que diz: "Não, este filho é meu. Eu sou o que ele precisa", para ser dito hoje precisa de uma mulher super empoderada. Não da boca pra fora, que esbraveja mas que esteja conectada tão profundamente consigo mesma ao ponto de vencer a sedução diabólica dentro da cabeça dela que sussurra repetidamente: você não sabe, você não é capaz, quem é você, vai por em risco seu filho, você é uma irresponsável, tem certeza do que quer...?

A humanização do parto tem essa vocação: a de revolucionar radicalmente esta realidade, mas não se pode fazer humanização do parto sem humanizar os sujeitos que atuam: mulheres e profissionais. 

E, a propósito, moçuolas da pesada, não se faz empoderamento da mulher aos berros, com slogans e palavras de ordem inclusive impostas sobres gestantes atendidas "humanizadamente". Este é o mesmo modelo anterior - bijuteria barata. 

Empoderamento verdadeiro vem do trabalho INTERIOR; sim, não se pode ficar no mental e no transe, mas deve-se ter a coragem de exercer aquele ato humilde do dobrar-se sobre si própria (e não simplesmente sobre o outro/a outra) e reconhecer em si própria (antes de simplesmente no outro/no outra) as origens da opressão (tão fácil de se exercitar mesmo nos meios humanizados) que prendem a um modelo duro de morrer e impedem aquela empatia por nós mesmas e pelos outros que a humanização prega.

Contato: atnhumanize@gmail.com